sábado, 20 de julho de 2013

Exorbitante

não me foi dada nenhuma originalidade
não sou único
não surpreendo sozinho
tropeço entre análises
inconclusas
se bem que.

auto-análises
confusas, despencadas por
falta de nexo e parâmetro
à espera da batuta alheia,
não a de cualquiera,
sim a de quem escuta
bem arraigado
minha profusão de banalidades

não posso ser crítico
assim, quietinho,
na minha
sem a batuta essa
que enraíza a torpeza
numa ontologia vivaz.

desorbitado, petulante,
exorbitante, pretencioso
o que eu quero mesmo é
pensar-me através de todos
é salvar-me através de todos
(ou morrer nas suas mãos)

quero que as assembleias gerais
de estudantes e trabalhadores
modulem minhas sinapses
me infundam razão

Alex Moraes 07/2013

sábado, 6 de julho de 2013

passa estranho

a melancolia chove no tempo
um contraste amargo e frio
como esse inverno que cheira a lenha
no centro de Montevidéu

chovido de melancolia o tempo
existe no cerne do minuto vivido
bem prosaico, nada épico

chovido de melancolia o tempo
pode ser visto, podemos vê-lo dar
voltas na sala, fluir entre duas janelas

a melancolia se aloja no
tempo e o sentimos ex-discreto
como a garganta inflamada

às vezes, feita tempo, ela
(a melancolia) se instala na frente
                          [da porta
sobre o piso
nas dobras do lençol
no sofá
na cozinha natureza morta
sobre a mesa de vidro
assim, quieta,
dolorindo tudo

chovido de melancolia o tempo
passa     estranho


Alex Moraes - 07/13

terça-feira, 2 de julho de 2013

torpólis anoitecida

luaviza o torpor dos membros.
também assim o das vaginas.

o verbo ousa dia arfeja arrisca
augúrios dissipa decepa angústia.

estreitam-se os corpos se
amassam uns contra outros.

antagonismo lascivo antigonismo
e efêmera ciência:

materialismo do imaginado?
assombrologia? antonimologia do conceito?

E pela manhã não mais voragem
às custas do improvável torpólis reatará
[o impossível

Alex Moraes - 07/2013

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Da festa à revolta. Sobre a necessidade de abandonar a didática do civismo.


Por Alex Martins Moraes e Juliana Mesomo

As ideias de defender, ocupar, retomar, etc. o que é público têm motivado alguns grupos a intervir em determinados lugares da cidade de Porto Alegre. Estas ações festivas pretendem contestar a forma como as autoridades municipais vêm administrando esses espaços. Os cartazes levados pelos manifestantes ao Largo Glênio Peres, ao Parque da Redenção e ao Paço Municipal denunciam o cerceamento dos seus usos possíveis, sua privatização. Se estes movimentos conseguem identificar com clareza a lógica subjacente ao atual modelo de “gestão” urbana, faltaria ainda avaliar os conteúdos e efeitos das suas próprias práticas de/na cidade. Por detrás das manifestações promovidas parece pairar uma noção mais ou menos abstrata de “espaço público”. Talvez seja justamente o caráter abstrato das consignas que garante, em cada ato, a presença de um público tão heterogêneo – pelo menos à primeira vista. Mas o que é, afinal, o “espaço público” que se pretende “defender”? É algo que realmente existe, como uma coisa que “está ali”?  O que ele integra ou exclui? Quem o enuncia, como e para quê?

Antes de qualquer coisa é preciso devolver o espaço público ao seu lugar, o de ideologia. Esta é uma postura necessária se não quisermos nos contentar com bandeiras políticas estanques para terminar fazendo o jogo dos urbanistas de plantão, sempre dispostos a ensinar-nos como usar “adequadamente” a cidade. Mas o que significa dizer que “espaço público” é uma construção ideológica? Significa, nada mais, entendê-lo como uma ferramenta discursiva construída para legitimar determinadas formas de apropriação coletiva dos lugares. Assim, quando reivindicamos e nos propomos a defender o espaço público, estamos dizendo algo sobre nós mesmos, sobre as práticas e moralidades que achamos convenientes para fundamentar o convívio social. “Espaço público”, portanto, consiste num conjunto de regras, valores e posturas que pessoas e instituições procuram introduzir no plano do real de acordo com seus próprios interesses e lançando mão de todos os meios ao seu alcance.

O primeiro ato da Defesa Pública da Alegria culminou com um desagravo violento à instalação do mascote da Copa do Mundo/Coca-Cola em pleno Centro da cidade. Foi então que a força policial e os meios de comunicação nos confrontaram com a sua própria concepção de espaço público. Para eles as ruas de Porto Alegre são o cenário do encontro entre grupos sociais que, apesar de manter interesses antagônicos entre si, devem manifestar-se pacificamente e argumentar racionalmente, sob a tutela do Estado neutro, capaz de ouvir a todos. Notamos que a premissa fundamental para a ocupação ideal deste “espaço público” era a seguinte: a violência não está permitida e, se usada – pasmem! – pode ser reprimida violentamente.

Essa experiência pública de pedagogia policial e midiática nos fez concluir que devemos abrir mão do conflito e da violência, em nome de uma “cidade amável e bem cuidada”. Bem aprendida a lição, depois do episódio do Tatu nos tornamos multiplicadores das práticas de bem (con)viver. Agora vamos às ruas mostrar a todos que queiram ver – especialmente a “opinião pública” – como o bom-cidadão-de-classe-média-(branco)-bem asseado-sorridente pode ser inclusive útil para a difusão dos valores cívicos e a promoção da segurança urbana. No ato de defesa da redenção (30/11/2012), em frente ao Araújo Viana, o que aconteceu foi uma aula pública de civismo: ninguém pensou em cruzar qualquer cerca, limpamos todo o lixo e celebramos a paz social e a endogamia de classe. Até as grades em torno do auditório, razão maior de nosso descontentamento, foram incorporadas ao mobiliário urbano, convertidas num criativo e inusitado estacionamento de bicicletas. No fim das contas, em que ponto a nossa atual ideia de espaço público confronta aquela operada pela mídia e pelo poder municipal?

Essa didática do civismo – que ajudamos a implementar com rituais em forma de festas e piqueniques destinados a sacralizar o parque e as grades, a exorcizar a cidade de toda presença conflitiva e a convertê-la, finalmente, em “espaço público” – serve de suporte, ao mesmo tempo ético e estético, que justifica e legitima o que mais adiante se tornarão normativas para a “conduta cívica”. Não é difícil imaginar quem fica excluído desse “espaço público” que estamos querendo instituir, desse “balé cordial de ciclistas sorridentes, de recolhedores de dejetos de animais e de passantes educados, incapazes de jogar uma ponta de cigarro no chão” (Ver Manuel Delgado, “O Mito do Espaço Público”: http://www.goethe.de/mmo/priv/2972847-STANDARD.pdf).

A Defesa Pública da Alegria escolheu o formato “festa ao ar livre” para mediatizar sua concepção de “espaço público”, para torná-la concreta, material e vivível. Isto é louvável, já que a festa e a revolta são duas coisas muito parecidas, até mesmo homólogas. O ritual festivo pode conduzir ao limiar da ordem; uma vez ultrapassado esse limiar, as coisas dificilmente voltam a ser como eram. Embalado por cantorias e danças, o esvaziamento do Tatu derrubou o consenso estabelecido em torno da ideia de que a Copa do Mundo era um “bem-em-si” e, portanto, algo indiscutível. As forças necessárias para essa irrupção violenta e transformadora do dissenso foram sendo acumuladas no decorrer da festa, através das interações, convergências, compromissos e engajamentos possibilitados por ela. A festa fez relampejar, ainda que fugazmente, a visão de outra cidade possível, engendrou vida social e transformou as forças da ordem numa frágil alegoria. Neste momento vimos desabar temporariamente a ideia de um “espaço público” que é cenário de fluxo e uso, mas nunca de transgressão, intervenção, quebra, destruição, modificação.

Infelizmente, a ocupação da Redenção significou uma nítida inflexão da Defesa Pública da Alegria em direção à apologia do “espaço público” pacificado. Será que o sangue e o gás conseguiram restaurar as regras do “civismo” no seio do movimento? Será que as grades do Araújo Viana impõem mais respeito e legitimidade que um boneco de plástico instalado em pleno Centro? Ambos não são símbolos monumentais de uma mesma lógica de gestão neoliberal e privatista? O fato é que a incorporação da didática do civismo operou para suprimir, no interior deste coletivo heterogêneo, as formas de dissidência subversiva que o discurso da ordem havia rotulado de “violentas” ou “incívicas” – e, portanto, ilegítimas, posto que desmentem ou desacatam o normal fluir da vida pública, declarada amável e não-conflitiva. Enquanto o argumento do civismo e a fé num “espaço público” pacificado forem nosso salvo-conduto para barganhar a anuência da “opinião pública”, podemos abrir mão de qualquer horizonte transformador. A festa será a eterna celebração de um dócil ritual de desacordo, mas jamais se tornará revolta.


domingo, 7 de outubro de 2012

Defesa da Alegria, pensamento único e o "esvaziamento" do consenso

Alex Martins Moraes

A Defesa da Alegria e o debate necessário

Estive presente na Defesa Pública da Alegria, dia 4 de outubro de 2012 (quinta-feira). Foi um dos eventos mais cativantes de que participei nos últimos tempos. Durante boa parte da noite, uma composição heterogênea de movimentos culturais, sociais, grupos musicais e de teatro fez emergir um belo espaço de interação criativa que me permitiu imaginar a cidade de Porto Alegre para além do estado de sítio neoliberal implantado pela atual administração municipal. Só por esta razão, por ter sido um movimento amplo e contagiante, que se dispôs a viver “uma outra cidade possível” em pleno  Centro privatizado da capital gaúcha, a Defesa da Alegria já mereceria o apoio firme e convicto de todos os setores democráticos.

Por volta das 23h, o movimento que havia começado na Praça Montevidéu se estendeu ao largo Glênio Peres, abraçando e fazendo tombar o boneco inflável que representava o mascote da Copa do Mundo. Em alguns minutos, o símbolo de uma alegria plástica e excludente converteu-se na imagem potente que afrontou o pensamento único e o falso consenso produzido em torno das obras da Copa do Mundo. A “queda” do tatu bola foi um ato legítimo de afirmação da importância do espaço público, de denúncia das arbitrariedades e exclusões inerentes às parcerias público-privadas.  O esvaziamento do tatu obrigou a aparelhagem repressiva da Prefeitura de Porto Alegre e do Governo do Estado a escancarar, pornograficamente, no Centro da capital, um ânimo autoritário que pulsava sorrateiro, há meses, em diversos bairros populares. Lá, bem longe dos holofotes e dos microfones da mídia gorda, centenas de famílias vêm sofrendo todo o tipo de pressão econômica e violência simbólica para deixarem suas casas em favor do “progresso” urbano representado pelas obras da Copa.

A Defesa da Alegria inaugurou, no dia 4 de outubro, um novo debate, ou melhor, tornou-o público, contribuiu para que se generalizasse. Já não é moralmente possível exaltar o desenvolvimento econômico trazido pela Copa do Mundo sem se perguntar por seu lado escuro e suprimido; pelas praças higienizadas – onde não há mais feiras ou eventos; pelas famílias mais pobres que são despejadas ou expulsas para bairros distantes em decorrência da especulação imobiliária e do baixíssimo bônus moradia; pela vida noturna desertificada, que só faz aumentar a sensação de insegurança daqueles que se “atrevem” a utilizar a cidade, suas ruas e avenidas.

Quem merece sofrer?

No dia 5 de outubro (sexta-feira), as notícias da manifestação realizada na Praça Montevidéu repercutiram nas redes sociais e em diversos órgãos de imprensa. Fiquei impressionado ao constatar que, principalmente na televisão – reduto monopolizado por grandes grupos econômicos que vivem, desde a ditadura militar, uma relação promíscua com o Estado –, ecoaram com força, sem nenhum contraponto, as vozes do autoritarismo e da morte. Realmente os grandes meios de comunicação consistem, hoje, numa ameaça concreta às grandes ambições democráticas da Constituição Cidadã de 1988. A mega-imprensa faz precipitar sobre a sociedade brasileira uma cultura de debate absolutamente autoritária, que, sob o pretexto de enunciar a “sensatez” e os “fatos”, faz apologia ao crime e exorta as polícias a estabelecerem “zonas de exceção” onde é permitido espancar, humilhar, trucidar.

“Zona de exceção”, foi nisso que se transformou o Largo Glênio Peres depois da queda do mascote da Copa. Eu nunca havia presenciado tamanha ignomínia. Enquanto tentava fotografar dois policiais que agrediam brutalmente um jovem, sem que este tivesse qualquer possibilidade de defender-se, recebi pancadas na cabeça e nas mãos e tive minha câmera quebrada. Isso aconteceu com outras tantas pessoas ao longo dos quinze minutos em que a Brigada Militar e a Guarda Municipal, completamente descontroladas, golpeavam cabeças – esta arma perigosa – e corpos, pontilhando as ruas centrais de poças de sangue. Mas não só na violência física se ampara a repressão. Não foram poucas as situações em que, ao espancarem mulheres, os policiais destilavam um profundo ódio de gênero, chamando-as de “vagabundas” e dizendo que elas fossem “lavar uma louça” e “procurar seus machos”.

E o que fazia Lasier Martins – esta carta marcada do reacionarismo gaúcho – em seu exercício diário de escatologia verbal no Jornal do Almoço? Referendava a ação da polícia, desqualificava o movimento de defesa da alegria e classificava como “terrorista” o protesto multitudinário da noite anterior. O que significa afirmar que alguém é “terrorista”? Ora, significa dizer que esta pessoa está fora de qualquer jurisdição, não goza de nenhum direito ou garantia, é uma vida nua a mercê de todo o tipo de acosso mortífero. A alquimia que transforma qualquer oposição em terrorismo é uma prática sempre a disposição dos governos autoritários e das máquinas de guerra imperialistas. Geralmente, o vocábulo “terrorista” vem acompanhado de outro adjetivo igualmente útil àquelas estratégias interessadas em impor o pensamento único: “fanático”. Quando há fanatismo, não há razão, não existe reflexividade, apenas irracionalidade. Não precisa, portanto, haver diálogo. Qualquer dissidência passa a ser animalizada, desumanizada, a tal ponto que se torna “razoável” justificar sua aniquilação e sofrimento em nome da defesa de um brinquedo inflável instalado no meio da via pública. Este é o tipo de operação retórica alentada pelos mesmos sujeitos que, amanhã ou depois, estarão afirmando – com o beneplácito da mídia gorda – seu eterno compromisso com a liberdade de expressão, os direitos humanos e as garantias individuais.

A Defesa Pública da Alegria foi e é uma contribuição necessária para a prática social pluralista. Sua emergência nas ruas da capital convida @s portoalegrenses a refletirem criticamente sobre os processos sociais que, hoje, convertem nossa cidade num espaço de conflitos, assimetrias e desigualdade. Mais além disso, o movimento da Praça Montevidéu consagrou táticas eficazes de luta social, as quais só tendem a enriquecer repertório estratégico dos processos coletivos de resistência que vicejam na cidade. A este respeito, era quase comovedor ler as queixas que o comandante da Bigada Militar fez à reportagem do Sul 21. Nelas, ele lamentava o absurdo de um movimento que se organiza através de redes dispersas – algumas virtuais –, tornando impossível o trabalho de identificação e coerção dos “envolvidos”. Depois desta melancólica constatação, vinha o aviso: da próxima vez a repressão será ainda mais dura. Ora, se até mesmo um policial reconhece que pode haver próxima vez é porque a defesa da alegria não foi uma ação isolada. Pelo contrário, consistiu na materializaçao de insatisfações diversas e generalizadas que seguem vigentes e continuarão repercutindo na esfera pública. Definitivamente, o frágil consenso acrítico performatizado pela prefeitura e pelos meios de comunicação hegemônicos em torno da Copa do Mundo foi “esvaziado”. Com a ágora reaberta – de direito e de fato –, o debate está lançado.


Algumas fotos que realizei no local até ter minha câmera destruída pela Brigada Militar:












domingo, 26 de fevereiro de 2012

Dos "lattes points" a uma dissidência possível




Têm se tornado cada vez mais frequentes as críticas ao atual modelo de funcionamento do sistema de pós-graduação no Brasil, principalmente no que diz respeito à sua subordinação à política de Ciência e Tecnologia e à sua dinâmica fortemente produtivista. Professores se queixam de que precisam realizar esforços hercúleos para cumprir com as obrigações profissionais sem deixar de responder aos os padrões gerais de avaliação da produtividade docente impostos pela CAPES (em programas nota 6 ou 7, espera-se que cada professor publique, em média, 1,5 artigos por ano em revistas internacionais conceito A). Já os estudantes, alertam para a defasagem entre a expansão de vagas na pós-graduação e o número de bolsas de estudo disponíveis. Eles manifestam, também, uma inevitável frustração diante da estrutura acadêmica que, movida por jogos de prestígio e poder, imerge em transe profundo, alheio a qualquer preocupação com a importância social do conhecimento científico.

Nas “hard sciences”, a palavra de ordem é "inovação" e os critérios para avaliação do mérito encontram-se suscetíveis a uma euforia tecnológica que suspende quaisquer indagações sobre a possibilidade de assimilação dos progressos científicos a planos globais de desenvolvimento societário. Nas ciências humanas e sociais, falar em "inovação", do ponto de vista do conteúdo da produção, não faz muito sentido. Nem por isso, o slogan perde seu poder de sedução. Se a ideia de deixar um pouco de lado o confortável e profícuo diálogo com os "clássicos" para aventurar-se nas águas dinâmicas do mercado e das consultorias ainda provoca certa restrição entre os cientistas sociais, a proposta de "inovar" nos moldes de apresentação das dissertações e teses soa como o canto das sereias. Em vez de longas monografias, por que não apostar em exposições mais versáteis, algo no estilo de um artigo compatível com as normas internacionais de publicação? Realmente o que parece dinamizar as características da produção de conhecimento é a própria vontade de produzir racionalizada e eficientemente. Grosso modo: produção pela produção. Mais grosso modo ainda, P-LP-P, ou seja, produção–"lattes points" (para usar a inspirada expressão formulada por uma colega)–produção. Eis o círculo virtuoso (ou seria círculo vicioso?) do conhecimento científico.

Dos comentários feitos até aqui, não é difícil concluir que o impulso produtivista, catalizado pelas exortações à inovação e sustentado pelas tecnologias vigentes de avaliação, é fonte principal de dilemas éticos e políticos que se alojam no cerne dos debates ocorridos dentro das instituições brasileiras destinadas ao ensino superior. Nesta breve crônica, me restringirei a tecer alguns comentários a respeito do impacto do produtivismo num campo disciplinar como o da antropologia, com o qual estou mais familiarizado em decorrência da minha condição de estudante de mestrado nessa área.

Em primeiro lugar, proponho uma brevíssima digressão que nos levará à década de 1970, quando a pós-graduação brasileira conheceu um dos mais importantes e definitivos impulsos governamentais para o seu desenvolvimento. Corria a ditadura militar no país. Em todas as grandes universidades públicas, irrompiam processos de expulsão e aposentadoria compulsória de um número importante de professores, oriundos das mais diversas áreas do saber. Em meados da década anterior, intelectuais destacados no cenário científico nacional já haviam deixado o país rumo ao exílio político. Alguns foram acolhidos em universidades estrangeiras, outros avançaram num necessário engajamento social. O caso emblemático deste último grupo foi o antropólogo Darcy Ribeiro, que depois de 1964, tornou-se conselheiro político de Salvador Allende no Chile e, mais tarde, deu aulas na Universidad de la República, em Montevidéu, onde escreveu o livro A Universidade Latino-americana. Após experienciar três golpes de Estado, Darcy regressou ao Brasil. Aqui, ele encontrou um sistema de ensino completamente reformulado. Reagiu mal às mudanças, soltou gritos iracundos que hoje ressoam no anedotário da antropologia brasileira. Darcy Ribeiro não suportou a tremenda complexificação do horizonte empírico da antropologia, espraiado muito além do indigenismo, matizado por estudos sobre urbanização, identidades emergentes e outros fenômenos associados não só ao radical processo de industrialização, mas também ao surgimento de uma arena política marcada por novos léxicos jurídicos e outros sujeitos de direito, outros "outros". Talvez o descontentamento de Darcy dissesse muito sobre a reorganização das relações de poder e do sistema de prestígio institucional na antropologia brasileira, mas não se resumia apenas a isso.

A reforma universitária da ditadura militar brasileira, na década de setenta, caiu em mãos conservadoras – como era de se esperar – e perdeu em muito seu potencial renovador (se é que tinha algum). A pós-graduação investiu um caráter elitista e ficou submetida à tutela externa. Abriu-se uma brecha decisiva entre os cursos de graduação e os níveis mais avançados de formação acadêmica. De um lado do abismo, os cursos superiores, destinados à formação cultural associada com capacitação técnica. Do outro lado, a pós-graduação, entendida como instância privilegiada da pesquisa e da legítima produção do conhecimento. O "benefício colateral" da reforma implementada pela ditadura foi a elaboração de um sistema mais ou menos coerente de instituições e agências de financiamento que garantiram a sustentabilidade da pós-graduação brasileira. Isto vem sendo chamado por certos acadêmicos de "profissionalização da atividade intelectual". Darcy Ribeiro retornou ao Brasil em 1976, quando o operário Manuel Filho foi "suicidado" pelo DOI CODI paulista. Nesse famigerado ano, a CAPES dava a conhecer seu flamante Sistema de Avaliação da Pós Graduação. Estavam criados os dispositivos governamentais que sintonizariam a pós-graduação com o processo de expansão da base material necessária à produção capitalista.

É claro que, em meio a toda essa reestruturação do Ensino Superior, o papel destinado às ciências humanas não foi exatamente importante. A noção de projeto nacional de desenvolvimento propalada pelo regime autoritário restringia-se a um enfoque tecnicista, onde importava muito pouco conhecer, sistematicamente, os impactos sócio-culturais da transformação econômica no presente do país do futuro. Mas nem tudo era um vale de lágrimas. Desenvolta das “amarras” do marxismo e do funcionalismo, a ciência social brasileira podia lançar-se a um contente carnaval de criatividade e experimentação. E se os milicos eram heróis, os antropólogos, assaz conhecedores da ciência dos arrabaldes, fariam as vezes de malandros. Esta lógica, em que pese sua aparente ingenuidade, produziu situações interessantes que precisam ser reconhecidas e valorizadas. O espaço da pós-graduação em antropologia privilegiou o incremento da produção científica e mesmo o aparecimento de uma tendência crítica que, distante de ser hegemônica, permitiu a realização de pesquisas consistentes cujo valor foi e é inestimável para a construção e aprofundamento da democracia no Brasil.

Mas algo parece ter ficado pelo caminho. Algo muito importante. Se bem me lembro -- e este relato nem de longe pretende ser literal --, Otávio Velho, em uma conferência dada em 2009 no Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da UFRGS, lamentava que toda a mobilização em prol da profissionalização da disciplina tivesse redundado numa aparelhagem acadêmica muito pouco dada à interdisciplinaridade e ao diálogo com outros setores da sociedade. Uma aparelhagem acadêmica endogâmica, às voltas com o paradigma produtivista, queixosa do pouco valor que o governo lhe reserva e, aventuro-me a dizer, confusa a respeito do seu real potencial crítico. Sem dúvidas aquela fala de Otávio Velho, em 2009, estava influenciada por sua recente experiência no Fórum “Ciências Humanas e Políticas Científicas, onde o presidente da CAPES, Jorge Guimarães, desafiou as associações científicas de humanas a trabalharem em um projeto para financiar pesquisas dispostas a pensar o Brasil na atualidade. Mas e agora? Já não havíamos emitido o atestado de óbito das grandes narrativas, dos amplos estudos exploratórios? O que fazer com a singularidade disciplinar construída a duras penas durante a ditadura militar?

Não raro, quando queremos justificar o porquê de utilizar o método etnográfico em determinado contexto e dispomos de poucas linhas para fazê-lo, usamos alguma fórmula do tipo: "perco em abrangência, mas ganho em profundidade". Reaproprio-me desta útil construção retórica para elaborar uma proposição em resposta à última questão do parágrafo anterior: utilizando a licença poética que minha condição de estudante autoriza, ciente de que perco em audiência, mas ganho em ousadia, sugiro que se trata, agora, de rechaçar qualquer disciplinarismo. A profissionalização dos antropólogos no seio do sistema universitário brasileiro teve um custo alto, capaz mesmo de colocar em xeque o êxito desta suposta façanha. Em primeiro lugar, a quase totalidade da produção de conhecimento promovida pela antropologia brasileira encontra-se, hoje, submetida a um estandarte geral de avaliação caracterizado pela (in)determinação quantitativa de toda a qualidade (ecos de 1976). Em segundo lugar, a canalização produtivista das dinâmicas disciplinares debilitou o único instrumento que permitiria à antropologia (ou aos antropólogos) enunciar alguma crítica crível das dinâmicas sociais atuais, a saber: a declarada aliança política no contexto da interlocução etnográfica. A este respeito, o antropólogo colombiano Eduardo Restrepo tece um agudo comentário que, se bem diz respeito à realidade do seu país, aplica-se com exatidão na conjuntura brasileira: "as antropologias hegemônicas confluem em uma postura cínica frente às tensões sociais do país. Suas preocupações radicam mais em emular as academias metropolitanas (principalmente a estadunidense) com suas modalidades produtivistas (agora enroupadas em noções de qualidade e internacionalização) onde as tensões sociais, no melhor dos casos, podem aparecer como objeto de um "paper" (assim mesmo, em inglês)" (ver entrevista com Eduardo Restrepo no boletim "A Tinta Crítica":http://antropologiacritica.wordpress.com/tinta-critica/). Por último, é impossível não reconhecer que a conversão da antropologia em disciplina acadêmica postergou qualquer expectativa de democratização das relações sociais ativadas na produção do conhecimento, deixando intactas certas genealogias institucionais e preservando uma atmosfera elitista em diversos programas de pós-graduação no país.

A antropologia, submetida ao paradigma do produtivismo, socializa os prejuízos em seu respectivo campo ao passo que mantém concentrados os benefícios associados a atividade acadêmica. Os docentes -- pressionados em seu trabalho pelo ônus da lógica da produtividade --, permanecem distanciados de qualquer projeto social mais amplo, ou daquilo que não diz respeito às suas preocupações imediatas (de produção). Mas eles recebem algum tipo de recompensa por isso, seja na forma de prestígio, reconhecimento ou bônus financeiros. Já as contrapartidas das políticas de educação superior que condicionam a produção docente, são a precarização do trabalho e a debilitação do processo educacional de maneira geral. Mas os prejuízos não param por aí. Os estudantes de antropologia, cujo número vem aumentando consideravelmente, não vislumbram nenhuma política de bolsas verdadeiramente generosa (na medida das grandes ambições que o discurso oficial atrela à pesquisa de pós-graduação). "Sem tesão não há produção", diziam os cartazes dos estudantes de mestrado em antropologia que paralisaram suas atividades durante uma semana, no ano de 2011, em Porto Alegre (movimento “paramos para pensar”).

Dito isto, fica difícil encontrar formas de atender ao chamado do presidente da CAPES a "pensar o Brasil na atualidade". A produção de um saber potente, crítico – e, por isso mesmo, socialmente útil – a partir da antropologia exige importantes reordenamentos, não apenas na constituição da disciplina, mas também nos parâmetros utilizados para avaliar seu desempenho. Não acredito que estes reordenamentos possam acontecer por si mesmos, assim como tampouco creio que todos os antropólogos estejam interessados em levá-los a cabo. Isto não muda o fato de que eles são fundamentais, caso os profissionais e estudantes que, hoje, se aventuram na área da antropologia pretendam criar as condições propícias para pensar com clareza o "Brasil na atualidade" (o Brasil na América-latina, no sistema-mundo; o Brasil e suas violências estruturais, desigualdades novas e velhas, o Brasil e suas epistemologias do Sul, etc., etc.).

Talvez a prática dissidente seja um caminho para explorar outras lealdades e alianças que conduzam a vias alternativas de legitimação da produção intelectual. Vias de legitimação onde interlocutores não-acadêmicos, antropólogos e outros cientistas sociais reforcem projetos políticos mútuos na esteira de uma práxis transformadora e propositiva que, sem negar a Universidade e a pós-graduação, construa espaços profissionais dignos e reconhecidos, mais além do aparelho de captura disciplinarizante submetido ao paradigma produtivista.


Alex Martins Moraes (mestrando PPGAS/UFRGS)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Pensei em Juan Gelman

Buenos Aires ferve
nos vidros e ferros do
mercado velho

O Rio da Prata coagula
bizarro, ambíguo
entre Paraná e Atlântico

Montevideo é suas
boas-vindas albanesas
de prado reto e urbe gris

A 1000 Km/h e 50 min dali
outro coágulo
entre docas e ilhas:

É Porto Alegre, sua vida
ao Sul; sua vida no âmbito
das horas que faltam
para a Revolução.

Braços que são quase nada

A flor branca da tangerina
debruça-se sobre a janela
do quarto clausurado
dentro, ares de
alcatrão e perfume

É a alcova do meu
despertar convulsivo,
rasgado
pelo arfejo duns pulmões
débeis e grises

Sou espáduas transpirantes,
olhos congestionados,
a crisálida escura no peito,
os pés tortos,
braços que são quase nada,
unhas que crescerão até horas depois
da minha morte.

Sou a velhice precoce e a
jovialidade censurada
que irrompe grotesca;
o jovem-branco-pequeno-burguês que
a estrutura arbitrária
da norma dita e não-dita
tritura sem pesar.

Pradarias em verão

Quero de volta meu estar
Nesse mormaço estival de jasmins azedos
Nessa úmida lufada de folhas sob o
crepúsculo plúmbico.

Mas as pradarias do Sul em verão
perdem-se dos homens e das mulheres,
aniquilam a espiga, o gérmen de
trigo, a viscosidade vívida e
malemolente do prateado dorso
dos peixes.

As pradarias do Sul em verão
perdem-se de mim;
resto absorto, envolto pelo calor
total que calcina corpos
e inflama angústias.

Não me peçam


Deem-me tempo para a
calçada, para a solidão
fora do gueto, para o roçar
da sola de borracha na superfície
desgastada do granito úmido
onde repousam flores roxas.

Não me peçam que escreva
nada sem antes atravessar lentamente
a madrugada ébria e a
manhã de náuseas.

Não me peçam que escreva
nada sem antes revisar
a poesia de América e
os arquivos de causas perdidas.

Deem-me tempo para envolver-me
com gentes duvidosas, embalado
por rompantes meus, por
convites de estranhos (estranhos meus),
por solidariedades militantes.

Não me peçam que escreva
nada sem antes ter me desiludido
[com vocês,
ter desertado de vosso assombroso
coro de espíritos anêmicos

Não me peçam que escreva
nada sem antes ter escolhido
uma crítica situada,
contra vossa crítica que pretende
vir de lugar algum,
ou vir d'Antropologia:
o que dá no mesmo.

Não me atropelem com vosso
monolito de papel que massacra
a alegria, que abafa
o ruído absurdo sob vossa
voz precariamente livre, impávida.

O ruído se parece à palavra não.

Não à tristeza que institucionalizastes
para chorar vosso fracasso de classe,
Não à tristeza que institucionalizastes
para albergar vossa crítica oficiosa;
vossa crítica que não se sustenta
acolá do efêmero eco
da palavra enunciada a sós.

domingo, 14 de agosto de 2011

Medida de mis faltas

Acegua - Julho de 2011


Tengo un libro a medio leer
una poesía a medio engendrar
Tengo un vestido a medio caer
el esperma a medio explotar
Tengo una patria a medio hacer
una bandera a medio empuñar

Pero la pampa, medida de mis
faltas, la tengo absoluta con solo mirar.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Poesia torta para uma tarde de Junho, para a tarde de 18 de Junho de 2011

O grito que ouço não se faz classe
e o crepúsculo é modorra
é vanguarda de mais-um-dia.

O último cigarro se apaga
no vinho avinagrado da
penúltima taça na
última capital do sul;
na metrópole meridional
que é souvenir nostálgico
do ontem de massas
e do passado de caudilhos.

Condensando todas as horas,
o crepúsculo, gerúndio do dia,
enuncia a noite. A noite do
Ocidente imaginado e palpável.

En el Sol o granito amorna
sob chicletes e escarros.
Na Grécia a praça está limpa.
Espera as hordas e o gás da manhã.
Na Itália dizem que
o capital é pervertido (não perverso)
porque imoral: confrontam-se
O Bem e o Mal na Paz das sacristias.

Porto Alegre anoitece sua noite
de centros melancólicos e
arrabaldes mundanos demais.
Sua noite cúmplice de vozes
que não se mesclam.

Em Porto Alegre não há aliança possível.

Há intelectuais vigilantes.
Há intelectuais zelosos na
Noite-de-mais-um-dia.
Eles temem partidos, bandeiras
e populacho.
Temem a nação e a classe.
Esperam epifanias.

São a consciência
do citoyen, o pouquinho
que cada qual pode fazer.

São litania perdida
em algum lugar entre o
ser-precisamente-assim e
a fugaz alegoria.

E nesta mesma noite,
ou na manchete policial de amanhã,
em pleno coito, na alvorada violenta,
no presente que é eterna véspera
duma esperança concreta,
milhões fazem poesia.

Fazem o agora,
tornam o tempo verdadeiro,
teleologizam, encarnam o antes e,
alegres, imaginam o depois.

Folheiam páginas com
avidez. Não hão de convertê-las
em resenha, em necrológico.
Plasmarão a poesia torta
das alamedas e ruelas;
poesia densa e desengonçada que se
[sustenta
com colchetes, que se
formula no plural, com trapos,
com grêmios, com merda,
lama, com resquícios do tecido.

As cinzas flutuam em bloco,
adernam, fragmentam-se e submergem
lentamente.


A taça treme.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Quando um intelectual é livre, se nota


Alex Martins Moraes

Dizem que o Rio Grande do Sul é o estado das polarizações e dos extremismos. Os gaúchos se pensam com relação a antinomias intransponíveis. Colorados e gremistas, petistas e antipetistas (ou seria reacionários e progressistas?), macho e fresco. Alguns sugerem que a origem destes dualismos remonta um passado de guerras e divisões políticas: republicanos e legalistas, ximangos e maragatos, castilhistas e anti-castilhistas. Enunciar dramas sociais através de oposições definitivas e transcendentes nunca assombrou os rio-grandenses. Juremir Machado da Silva é das poucas pessoas que se arrisca a desestabilizar publicamente dualidades de longa data consolidadas no imaginário local. Nosso autodenominado escritor maldito faz questão de explicar aos leitores do Correio do Povo que a agudeza irônica dos seus textos rompe os limites arbitrários de nossas desgastadas oposições. É possível – nos ensina Juremir – assumir uma postura política consistente sem se definir com respeito aos rótulos previamente dados. Juremir Machado se diverte lendo os e-mails enviados pelos leitores. Conta que ao longo de sua carreira jornalística, os textos que escreveu já lhe renderam toda a sorte de adjetivações, algumas delas, mutuamente excludentes: comunista - antipetista, obtuso - esclarecido. As reações do público que acompanha suas crônicas diárias revelariam a perplexidade causada por um estilo singular de narrar a realidade. Juremir Machado da Silva está na vanguarda, alcançou a consciência pós-moderna, para usar uma das poucas categorias que o escritor maldito reivindica para si.

Assim, armado com uma potente ferramenta de análise da realidade, o misterioso colunista do Correio do Povo se lança nos mais candentes debates sociais do seu tempo. Atento a pauta dos grandes jornais do país, Juremir traz aos pampas aquelas discussões que realmente importam e sugere uma forma inovadora de interpretá-las. Não se deixa seduzir pelos fanatismos políticos, pelas lealdades cegas, pelo ranço das elites, pelo cinismo de certas ideologias. É o livre-pensador por excelência. Contudo, ocupar um lugar legítimo de fala requer que façamos concessões aos cânones da hegemonia. Juremir Machado, consciente destas restrições, ritualiza uma adesão aos regimes de hierarquização e validação do saber. Regularmente ele repassa as produções mais importantes de sua carreira, relembra a densidade do seu currículo Lattes, evoca constantes viagens à França e diálogos com intelectuais respeitados. Todos estes são movimentos estratégicos. Às vezes é imperativo demonstrar que percorremos o circuito que conduz à legitimidade para, ato seguido, desnaturalizar os termos em que estão colocados os jogos sociais e expor a arbitrariedade que lhes é subjacente.

Muito pouco fica de pé depois da ácida crítica machadiana. Não, machadiana não. Juremir rejeitaria este rótulo não apenas por sua falta de originalidade mas também porque reporta à figura de um escritor que se encontra nas antípodas da postura política do cronista maldito. Refiro-me a Machado de Assis, este negro traidor que Juremir Machado se esforça por condenar no tribunal da história. ¿Como um escritor prestigioso e negro (ou mulato, não sei como se autodeclarava) foi capaz de se manter calado diante da ignominia escravocrata? Talvez porque numa sociedade onde a condição social do negro estava delineada por sua subordinação naturalizada ao trabalho braçal, um sujeito como Machado de Assis, filho de pais livres (mãe lavadeira, pai pintor de paredes), não se percebesse como vinculado à raça subalterna. Se bem a subordinação do negro parece ser uma constante na história brasileira, não foram sempre os mesmos dispositivos de exclusão que desencadearam a segregação e o genocídio. Ser negro nem sempre significou a mesma coisa que significa hoje. O caso de Machado de Assis é, sem dúvidas, bom para pensar. Mas as colunas jornalísticas raramente são um lugar apropriado para este tipo de atividade do espírito. O espaço é curto, o público alvo, sumamente heterogêneo. Como fazer para, diante destas contingências, manter uma postura afrontadora, franco-atiradora e profundamente crítica? Difícil. Juremir, realista e consciente, abre mão da terceira exigência retendo as duas primeiras. São elas, ao fim e ao cabo, que definem um escritor maldito.

Juremir duvida dessas posturas teóricas que tendem a reduzir tudo a meros “jogos de poder” sob o pretexto de incorporarem potencial crítico. A crítica está morta. Esta talvez seja uma das mais importantes lições que Juremir Machado nos traz da sua experiência direta de docente na Pontifícia Universidade Católica. Lá, seus alunos aprendem que o “sociólogo marxista (!!!) francês” Pierre Bourdieu banaliza (?!) as regras sociais ao demonstrar sua natureza arbitrária. Tem de haver algo mais profundo detrás dos fenômenos que polarizam a sociedade. Deus, assim como a crítica, o marxismo e a modernidade, está morto. É necessário, então, recorrer a outras explicações. Juremir avança em sua busca da natureza das relações sociais. Ele se afasta das dicotomias estabelecidas, toma a distância correta para começar a disparar. Surgem, então, os postulados que arrebatam a cacofonia antinômica que engessa os debates sociais no Rio Grande do Sul. Neste momento, a originalidade e desprendimento do escritor maldito alcançam sua mais alta expressão. Juremir Machado da Silva realiza uma bricolagem onde se mesclam vernizes acadêmicos e categorias de valoração moral amplamente disseminadas no vernáculo reacionário. Desta mistura inusitada, brotam revelações afiadas. Machado de Assis, recortado do seu contexto social, se converte em traidor. À diacronia marxista e à sincronia estruturalista, Juremir Machado opõe a anacronia.

Diante da linguística demagógica representada pela Abralin, o quixotesco cronista do Correio do Povo igualmente se insurge. Não aceita o ponto de vista daqueles que entendem as disputas em torno das regras de uso de um idioma como “meras” dinâmicas caracterizadas pela reconversão de capital simbólico (conceito que Juremir confunde com o de “capital social”, seguramente de forma propositada, afinal o que importa mesmo para um escritor maldito é atirar em quem quer que seja, nem que para isto se faça necessário manipular o conteúdo do seu argumento – ler coluna do dia 25 /05/2011). Neste debate contra o “marxismo linguístico”, nosso abnegado cronista abre mão do seu afã por desestabilizar dualismos. Ele sequer arrisca postular uma opinião inovadora. Idioma é coisa séria e brincadeira tem limites. Estão em jogo, aqui, a manutenção ou recuo do poder expressivo da língua. Juremir incorpora a postura do intelectual sóbrio, que sabe colocar os pés no chão e lembrar algumas verdades básicas da vida em sociedade: a língua escrita é um dos lugares mais privilegiados para a realização da expressividade humana. Levando ao extremo esta afirmação, podemos pensar que a ignorância sistemática de certos aspectos da norma culta pode, progressivamente, nos levar a perder o poder de expressar a nossa subjetividade. Tudo se passa como se compartilhássemos as mesmas demandas expressivas com a diferença de que alguns sortudos conseguem manifestá-las de forma mais acabada e outros não. É necessário, portanto, sinalizar o certo e o errado se se quer evitar o obscurantismo disfarçado de relativismo. Juremir reconhece que cada época tem seus certos e errados e que estas noções mudam com o tempo e de acordo com as sociedades. Não deixam, contudo, de existir. Juremir as entende como algo quase concreto, palpável. Tão palpável quanto uma suposta universalidade das demandas expressivas da humanidade.


Na linguística de Juremir Machado, podemos determinar o poder expressivo de cada grupo social ou coletivo humano avaliando sua maior ou menor adequação a norma culta vigente de uso do idioma escrito. Ao colocar as coisas nestes termos, o cronista maldito se vê em insólita companhia. Perfilam-se ao seu lado expoentes do pensamento reacionário pampeano como Percival Puggina e Claudio Moreno. Este último, aliás, desenvolveu acuradíssima técnica para medir o progresso linguístico dos atores sociais. Certa feita, durante aula de português para alunos do pré-vestibular, Moreno enunciou um postulado cuja essência normativa tentarei preservar numa reprodução livre de sua fala: se vocês chegarem na frente de uma casa e encontrarem aviso do tipo “não estacione, garage”, das duas uma: ali reside ou um francês ou um ignorante. Este é o tipo de conclusão que a linguística de Juremir Machado valida. Existem certas oposições indiscutíveis, posto que fundamentais. Elas alicerçam uma ordem social que, deliberadamente, a crônica maldita juremirmachadiana não está interessada em desestabilizar. Compreensível. Juremir, diferentemente de Machado de Assis, se entrega a toda sorte de ousadia literária sem jamais trair a sua classe. Quando um intelectual é livre, se nota. Não é o caso de Juremir Machado.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Do que as elites riem?

A imprensa gaúcha deu grande visibilidade ao projeto de lei do deputado Raul Carrion (Partido Comunista do Brasil) que tem por finalidade regular o uso de estrangeirismos nos meios de difusão escrita da informação. Alguns jornalistas sugeriram que o debate sobre a utilização de palavras estrangeiras na publicidade, nos jornais e mesmo em documentos oficiais está desprovido de importância, visto que questões de grande monta aguardam, ainda, uma adequada discussão em nossos parlamentos. Argumentos semelhantes são levantados quando se trata de problematizar a regulamentação da atividade jornalística ou mesmo a recuperação de informações que levem a identificar os responsáveis por violações dos direitos humanos durante a ditadura militar. É embaraçoso constatar o esforço da mega-imprensa em determinar aquilo que deve ou não ser posto em pauta na esfera institucional.

Apesar da jocosidade maliciosa e desinformativa que caracterizou a cobertura dos grandes jornais ao projeto de lei do deputado comunista Raul Carrion, o fato é que a discussão está colocada. Aumentar o nível do debate pode ser saudável. Opiniões críticas sobre o assunto em questão alertam para a dificuldade de implementação da lei e sugerem que, no geral, ninguém tem dificuldades para compreender vocábulos estrangeiros já amplamente disseminados. Alguns acadêmicos lembraram que os idiomas não constituem totalidades imutáveis. O português, como língua viva, atualiza-se mediante empréstimos variados. Ocorre que a lei aprovada no RS não visa proibir o uso de palavras provindas de outras línguas. O deputado Carrion propõe que, quando vocábulos estrangeiros apareçam em qualquer texto de ampla difusão, sejam ou traduzidos ou explicados ao leitor. Isto, sem dúvidas, promoveria um uso reflexivo e, portanto, qualificado da escrita.

Quero chamar a atenção, agora, para outra dimensão que caracteriza o uso de estrangeirismos em diversos textos que nos interpelam cotidianamente. Refiro-me a dimensão da violência social implícita em qualquer ato comunicativo que, dirigindo-se a um público amplo, priva determinados indivíduos de uma compreensão mais integral do conteúdo vocabular do texto enunciado. Os processos de diferenciação, segregação e exclusão operam por meios variados. Entre eles, o idioma. Não é coincidência que, na maioria das colunas sociais, termos como “coiffeur”, “cool”, “in”, “out”, irrompam sistematicamente para descrever a sedutora vida social das nossas elites econômicas. Falar e não ser entendido pode ser muito rentável às vezes. Tão rentável quanto insinuar que todos entendem o manancial de palavras estrangeiras que pontilham peças publicitárias e matérias jornalísticas. Quem desconhece o sentido de determinado termo é automaticamente convertido em aberração. A naturalização dos estrangeirismos naturaliza, também, eventuais estratégias de distinção alentadas pelo manejo desse tipo de vocábulo.

Mais do que inflamar o debate entre ortodoxia e heterodoxia, o projeto de Raul Carrion nos convida a refletir sobre os usos do idioma no contexto de uma sociedade violentamente desigual. A chacota e o deboche deram, até agora, a tônica da controvérsia gerada pela Lei 156/2009. Este parece ser mais um sintoma do embaraço causado pela visibilidade que o uso de estrangeirismos recebeu no Legislativo gaúcho. Costumamos rir daquilo que nos constrange. Transformamos em piada aquelas ideias que, se expressadas de outra forma, seriam intragáveis. Que preconceitos e práticas segregacionistas se ocultam sob as gargalhadas generalizadas?

quinta-feira, 17 de março de 2011

A própria vida


Vento invasivo no sul da metrópole
brônquios dilatados
coração pulsante
dentes e língua verdosos

aspectos do impacto
do brometo de ipratrópio que
arrebenta o peito numa orgia
aeróbica: parâmetro hiper-real da respiração.

aspectos do impacto
do arbusto nativo que
invoca todos o matizes
da selva ao roçar papilas.

Fora isso, há epifenômenos,
uma angústia discretíssima: a própria
vida, dada a conhecer através
de um feixe de energia.

Meia noite, rue des Bernardins


Meia noite, rue des Bernardins,
penso no sal, no trauma,
no mar, na distante Ouahran.
Depois da conquista jamais houve calma.

Na gélida cidade varrida
pelo feixe da Torre
há estopor dissipado, ferida,
esperma censurado qu`escorre.

Não é calma, mas letargo,
modorra de domingo, tensa.
Ranso de província, amargo.
Obsessão sem poesia, doença.

Do ódio que a tortura desata
Da torrente de punhos na praça
Do jugo que a explosão arrebata
nada a aproveitar: mordaça

Resta pouco a declarar.
Eram mazelas do momento.
Mas que lema a bandeira oculta? "Recalcar".
O olvido é do silêncio desejado rebento.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Notas sobre uma possível intervenção na Líbia



Alex Martins Moraes


Não é difícil colocar em xeque o maniqueísmo midiático em torno da crisa na Líbia. As manchetes vêm sugerindo que um cruel ditador enfrenta com bombas a insurreição democrática dos seus cidadãos. Bastaria apontar, entretanto, que os jornais não oferecem absolutamente nenhum elemento que nos possibilite entender quem são estes sujeitos rebelados contra o regime estabelecido para concluir que é quase impossível posicionar-se com relação ao conflito líbio. Quais objetivos políticos estão em jogo na Líbia? Com base nos elementos disponibilizados exclusivamente pela imprensa brasileira, só podemos responder que é muito difícil avaliar o que ocorre no Norte da África. Mais difícil ainda é emitir juízo moral sobre os enfrentamentos em questão.


Parece que às vezes os jornalistas esquecem que nem todas as pessoas têm sobre si a obrigação que, diariamente, lhes é imposta nos lugares onde trabalham: pensar rápido. Tal obrigação produz resultados perversos. Repetem-se as mesmas análises políticas baratas e objetivadoras nos meios de imprensa de todo o globo: um desperdício da internet, esta alardeada ferramenta de pluralização das vozes e das ideias. Mas não nos contentemos apenas em identificar a existência de infinitas redes reprodutoras dos mesmos jargões. É preciso, ainda, dizer que tais redes estão hierarquizada por uma verdadeira divisão internacional do trabalho informativo. As grandes agências, atreladas aos poderosos interesses capitalistas, produzem uma vasta gama de interpretações rasteiras que são fartamente consumidas pelos jornalões brasileiros. Dou um exemplo. O Estado de São Paulo, mesmo tendo enviado um correspondente à Líbia, não consegue controlar sua gula reprodutora. No dia oito de março, referido jornal publicou em seu site uma matéria copiada e colada da agência Reuters. O texto relata as recentes movimentações de tropas governistas e rebeldes. Suas linhas estão pontilhadas de “pitadas analíticas” do tipo: governos estrangeiros se esforçaram para acordar uma estratégia unificada para lidar com a turbulência no país produtor de petróleo, que Kadafi governa em estilo autocrático e quixotesco desde que tomou o poder em um golpe militar, em 1969”. A matéria original da Reuters não foi alterada em nenhuma vírgula (ver texto em inglês: http://af.reuters.com/article/topNews/idAFJOE72700R20110308). Parece que nossos jornalistas, satifesteitos com as gotas de sabedoria das agências que dominam o mercado da informação, optaram por perfilar-se na oposição a Kadafi. Agora eles não vêem a hora de poder cobrir (ou, melhor dizendo, copiar e colar a cobertura de outrem) uma “intervenção internacional” na Líbia.


Como eu não preciso e nem quero pensar rápido, desisto, de antemão, da quixotesca tentativa de deslindar as razões e raízes do conflito líbio à luz das opiniões e análises fornecidas pelas vozes autocráticas da imprensa de sempre. Acredito ser mais sensato indagar sobre o significado de uma intervenção externa no Estado africano. A respeito deste tema, aliás, temos uma pluralidade de informações a disposição. É possível compará-las entre si e pensá-las à luz da experiência histórica recente no que tange aos conflitos do mundo árabe. Para os fins deste artigo, proponho uma pergunta tão banal quanto interessante: o que significa(ria) uma intervenção internacional na Líbia?


Posso abordar a questão proposta de três formas, procurando respeitar, assim, a amplitude do tema. Primeiro, é necessário explicar o que significa intervir militarmente nos assuntos internos de um país do ponto de vista das relações internacionais. Segundo, há que saber se existe apenas uma modalidade de intervenção em jogo. Terceiro, é interessante sinalizar os possíveis resultados de uma ingerência de tipo militar tendo em vista casos semelhantes ocorridos no Oriente Médio e nos Balcãs em tempos recentes.


Em primeiro lugar, intervir militarmente em qualquer país significa cercear sua soberania nacional. Desde o século XIX, com a queda dos grandes impérios europeus (leia-se, impérios que tentaram impor sua hegemonia sobre a Europa), o consenso nacional contemporâneo começou a avançar de forma cada vez mais definitiva. As alternativas imperiais foram postas em detrimento da perspectiva de coexistência de diversas nações dotadas de soberania territorial e preocupadas em establecer estratégias eficazes de governo da sua população e dos seus recursos. Do ponto de vista da política exterior, estabeleceu-se uma espécie de consenso colaborativo segundo o qual cada país dependia dos demais para atingir sua prosperidade que era, trambém, a prosperidade da própria Europa. Terminada a Segunda Guerra Mundial e derrotado um dos últimos intentos de constituição do império (III Reich), foram criadas diversas organizações multilaterais entre as quais o modelo mais acabado se chama ONU. Estas organizações regulam o direito internacional e impõem limites ao exercício das soberanias nacionais. Sendo assim, restringir a ação soberana de qualquer governo não é, por si só, uma violação da normativa vigente em âmbito supranacional. Avaliar o sentido de uma eventual ingerência internacional na Líbia exige, necesariamente, contextualizações.


A única organização em torno da qual existe um consenso legitimador mundial é a ONU. Recentemente, o líder líbio Muamar Kadafi sugeriu que as Nações Unidas enviassem uma comissão encarregada de avaliar se estão ocorrendo as alardeadas violações maciças aos direitos humanos no país. Trata-se de uma reivindicação aceitável, afinal, é a ONU que opina com maior legitimidade sobre o que são ou devem ser os direitos humanos – esse tema tão controverso. O envio de uma comissão plurinacional destinada a definir se o governo da Líbia está fustigando civis significa, logicamente, intervir nos conflitos sociais desencadeados em um país específico. Uma comissão nomeada pela ONU suspende, temporariamente, o poder de um governo de falar sobre si próprio aos olhos do mundo. Qualquer constatação da ONU levaria em conta os pareceres dos seus funcionários e não os do presidente Kadafi. A partir daí, os órgãos competentes das Nações Unidas poderiam definir sanções políticas, econômicas e militares cabíveis.


Os rebeldes que lutam contra o governo de Kadafi sugerem a necessidade de imposição de uma Zona de Exclusão Aérea (No Fly Zone) sobre o país norte-africano. Estados Unidos, França e Grã-Bretanha também endossam semelhante alternativa. Esta é outra possibilidade de intervenção que pode ou não se desencadear com o aval da ONU. Como Rússia e China, membros com poder de veto no Conselho de Segurança, estão reticentes quanto a necessidade de bloquear o espaço aéreo líbio, é muito provável que um Zona de Exclusão Aérea, se imposta, seja operada por outro tipo de concertação internacional (OTAN, UE, Liga Árabe). Se isto vier a ocorrer, é de se esperar que o exército líbio reaja. Neste caso, para manter o fechamento dos céus, seria necessário destruir toda a infraestrutura de defesa antiaérea do país, ou seja, entrar em guerra com a Líbia e assumir as consequências políticas e humanitárias que este tipo de situação engendra. Pergunto, então, se uma intervenção de tipo militar contra o governo instalado em Trípoli não acarretaria, no fim das contas, o prolongamento do conflito.


Os primeiros protestos que estouraram no país de Kadafi foram interpretados como reverberação da crise egípcia e tunisiana. Entretanto, o posterior desenrolar da situação deixou claro que existiam diferenças entre cada um destes contextos nacionais. À medida que os dias passavam, o governo líbio demonstrava capacidade de administrar os confrontos, impondo reveses importantes aos insurgentes. Longe de bater em retirada, Kadafi reagiu com armas a uma sublevação igualmente armada que muito pouco parecia ter de espontânea. O problema é que agora o líder líbio, tão afeito ao ocidente e apoiador declarado da “guerra contra o terror”, se tornou um entrave para os intereses norte-americanos e europeus na região. Segundo o site de informação Réseau Voltaire, o coronel Kadafi, ex-nasseriano, especilizou-se, durante anos, em fazer um jogo dúbio, correndo o risco de, muitas vezes, jogar em dois campos ao mesmo tempo. Ele ostentava um discurso ultra-radical contra o imperialismo estadunidense e o sionismo ao passo que servia aos seus interesses liquidando, por encomenda, alguns dos principais opositores ao regime. Kadafi nunca empreendeu nenhuma ação contra Israel e estava oficialmente reconciliado com os EUA desde 2003. Contudo, seu ressentimento para com os líderes da Europa e dos Estados Unidos poderá ter consequências (econômicas) nefastas. Isto porque, ao sentir-se traído pelo “ocidente”, Kadafi não titubeará em estremecer a “tranquilidade” da África mediterrânea – garantida, há décadas, por governos autoritários pró EUA e UE. Solução pragmática: aproveitar a roupagem popular – desbotada, é certo – da revolução líbia para derrubar Kadafi sem chocar a comunidade internacional. Benefícios da solução pragmática (ou seria “capital-pragmática?): estabilização do abastecimento de petróleo, baixa do preço do barril e preservação de uma zona política tampão no Magreb capaz de isolar o Irã e garantir a manutenção dos interesses de Israel. Quantos coelhos numa única cajadada!


Última questão. Está atestada a eficácia das Zonas de Exclusão Aérea? Pois bem, elas foram impostas ao Iraque, no governo de Bush pai. Saddam Houssein, entretanto, permaneceu no poder por mais de uma década até ser derrubado mediante invasão terrestre estadunidense. Na Bósnia também foi imposta uma zona de exclusão aérea, contudo, apenas a ocupação da região pela OTAN apazigou o conflito: uma paz de cadáveres.


Material consultado a respeito do conflito na Líbia:


Libye : les enjeux d’une zone d’exclusion aérienne, Philippe Leymarie: http://blog.mondediplo.net/2011-03-07-Libye-Exclusion-disent-ils

Países Árabes – o vento que agita o rio, Moisés Saab: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=149139&id_secao=9

Israël vole au secours de son allié Khadafi: http://www.voltairenet.org/article168711.html


quinta-feira, 10 de março de 2011

Yo no soy machista, y qué?

Abaixo alguns vídeos produzidos no contexto de uma campanha publicitária contra o machismo no Equador. O material é interessante não tanto pela argumentação utilizada (que já está bastante difundida), mas sim por constituir uma campanha pública e massiva de reação à violência contra a mulher. Bom exemplo, bom precedente.







terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Últimas "instruções para cevar o mate"

Car@s,

abaixo o último vídeo das "Instruções para cevar o mate", gravado na nossa derradeira escala em ultramar.

"Instruções para cevar o mate" foi uma ideia que visava jogar com o inusitado (certamente flertamos com a leitura de Cortázar). Quando surgia a inspiração, tratávamos de realizá-la usando o equipamento de que dispunhamos. Nas nossas mãos, duas câmeras fotográficas Nikon, na nossa cabeça essa ideia de olhar paisagens, momentos, golpes de luz, rituais genéricos e conjugá-los com a cevadura do chimarrão. Assim fomos singularizando alguns momentos. Os jogos de sentido possíveis são variados. Andaram me dizendo que cada um encontra nesses simplórios audiovisuais a afronta que bem entender. Será verdade que nas "Instruções..." sempre há afronta? Tlavez não. Penso que nelas reside apenas um tipo de obviedade que anda carente de registros. Opinião pessoal. Pode ser que nem o Rodrigo Gonçalves concorde.