quarta-feira, 10 de junho de 2009
MUNDO.
E gostaria de dizer tantas coisas, tantos mundos, que de tanto querer me perco e fico presa do lado de dentro das palavras, sem conseguir abrir suas janelas.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Prosa psicanalítica
Passado o estranhamento inicial, comecei a brincar com os reflexos estranhos, e lembrei de uma música: “Hello, mirror/So glad to see you my friend/It's been a while...”, e de uns versos do Fausto: “Nunca imaginei-me assim,/vendo a mim mesmo, tudo.”.
Comecei então a pensar (tempo fértil, este, das paradas de ônibus) nos olhos que nos olham. São muitos, mas há um que faz toda diferença e que chega quase a ter controle sobre nós.
Este é o Outro. Não o conhecemos, mas imagino que deva ser uma pessoa dessas de humor ácido, daquelas que riem com os olhos (os sorrisos dos olhos são os piores, ou os melhores), ironicamente, daquilo que tememos e desejamos, além de rir da imagem que tão difícil e cuidadosamente construímos para todos os outros, inclusive o Outro.
E o Outro ri porque sempre sabe de tudo que se passa conosco, e nos faz transparente com apenas um olhar. Se temos alma, ele a vê, e se achamos que não temos, ele dá aquele sorriso-olhar que nos lembra da nossa incapacidade de saber das coisas mais importantes, como almas, amores e sentidos de vida.
O Outro é onipresente.
Mas não se pode simplesmente chegar do seu lado e chamá-lo para um acerto de contas, perguntando cara a cara porque afinal ele não pára de prestar atenção no que fazemos/sentimos/pensamos, porque ele também não sabe o propósito último deste seu olhar que nunca cansa. E provavelmente, se lhe perguntássemos, responderia com outro sorriso-olhar sarcástico, debochando das nossas vãs tentativas de constituir nossa personalidade forte e livre de tantas influências e, claro, olhares.
Seu maior truque é transformar-se. Disfarça-se de qualquer pessoa que queira. Por isso às vezes conseguimos dar alguns nomes a Ele. Mas não se enganem, no final é sempre Ele a olhar. E a julgar. E a saber. E a sorrir.
Minha única esperança é que o Outro também tenha um ponto fraco. Algo que eu possa olhar. Quero ver se Ele suportaria ver-se como eu me vi nos meus óculos, ver-se de fora. E conviver com isso depois. E principalmente, falar sobre este olhar que nos faz tão fracos.
domingo, 31 de maio de 2009
Preciso prosear com alguém...
domingo, 24 de maio de 2009
As Anti-PoA
Vem comigo! porque há tom monocorde de vozes que já não seduzem. Só comovem.
Vem comigo! " o eco da avidez massacrada é a efusividade vulgar.
Vem comigo! " qualquer palavra solta vira poesia.
Por isso vem! e idealizaremos.
Idealizaremos para além do substrato desesperadoramente estável de
massa fria onde uma metrópole frustrada sesteia delirante.
Anti-PoA II: prostrar-se
Aqui, lugar onde há movimento e matamorfose em sucessões [previsibilíssimas,
os avançados estetas que exigem NY podem refestelar-se em prantos patéticos.
Não deixam de ter um lugar-função.
Mas e o cafona? E os bares que vencem noites, as paredes que matam gente?
O vinho e seu bordô que estria labios?
PoA é só latência porque morre para os que dela esperamos algo. [Letárgica.
vaguarda viável duma retaguarda que jaz.
esboço precoce do que um Sul mal resolvido não pôde ser.
Difusa miragem urbana entre as decrepitudes possíveis
no presente eterno do novo mundo.
Porto de prosas encalhadas,
campo de prostrados, paradoxo austral
assentado num amnésico dever ser.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Sobe!
Apertei o botão chamando o elevador e pouco tempo depois a porta abriu. A ascensorista colocou a cabeça pra fora da caixa e, com um livro de Sidney Shelton na mão, gritou: SOBE! Assim que entrei já fui falando: Quinto andar, por favor. Sem olhar pra mim ela fez acender a luz que dizia respeito a meu destino e voltou a ler. Fiquei fingindo que procurava alguma coisa na mochila quando paramos no terceiro andar, olhei para a moça sentada no banco que lia Sidney Shelton e ela repetiu o grito do mesmo jeito que fez no térreo: Sobe! Ninguém entrou, mas uma senhora de uns cinqüenta e cinco anos com o cabelo curto e vestindo saia até pouco abaixo do joelho com uma blusa amarela anos 80, pensou falando: Ah! Tá subindo, né? Mas na volta você passa por aqui? A ascensorista pela primeira vez pareceu realmente habitar aquele elevador e respondeu: Espero que sim.