segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Manifesto dos intelectuais e artistas pró Dilma Rousseff

Dilma em Porto Alegre, primeiro ato da campanha, 2010
Foto: Alex Moraes

N
ós, que no primeiro turno votamos em distintos candidatos e em diferentes
partidos, nos unimos para apoiar Dilma Rousseff.

Fazemos isso por sentir que é nosso dever somar forças para garantir os avanços
alcançados. Para prosseguirmos juntos na construção de um país capaz de um
crescimento econômico que signifique desenvolvimento para todos, que preserve os
bens e serviços da natureza, um país socialmente justo, que continue acelerando
a inclusão social, que consolide, soberano, sua nova posição no cenário
internacional. Um país que priorize a educação, a cultura, a sustentabilidade, a
erradicação da miséria e da desigualdade social. Um país que preserve sua
dignidade reconquistada.

Entendemos que essas são condições essenciais para que seja possível atender às
necessidades básicas do povo, fortalecer a cidadania, assegurar a cada
brasileiro seus direitos fundamentais.
Entendemos que é essencial seguir reconstruindo o Estado, para garantir o
desenvolvimento sustentável, com justiça social e projeção de uma política
externa soberana e solidária.

Entendemos que, muito mais que uma candidatura, o que está em jogo é o que foi
conquistado.

Por tudo isso, declaramos em conjunto o apoio a Dilma Rousseff. É hora de unir
nossas forças no segundo turno para garantir as conquistas e continuarmos na
direção de uma sociedade justa, solidária e soberana. 

Leonardo Boff - Chico Buarque - Fernando Moraes - Emir Sader - Eric Nepomuceno-
Regina Machado - Marcelo Laffitte

Para aderir, escrever a emirsader@uol.com.br e ericnepomuceno@uol.com.br

terça-feira, 3 de agosto de 2010

No fim das viagens



Andei por Colônia do Sacramento na semana passada. Foi a terceira vez em que tive oportunidade de percorrer uma das mais antigas cidades uruguaias. Logicamente dediquei horas da noite e da tarde para passear entre os casarios setecentistas da época portuguesa, dividindo o espaço das estreitas ruas com volumosa quantidade de turistas, a maioria deles procedentes do Brasil e da Argentina.

Câmera em mãos, me vi arrebatado por uma profunda falta de inspiração, não tinha vontade alguma de fazer o registro fotográfico daqueles locais. Nenhuma perspectiva parecia-me adequada, ainda que os golpes de luz crepuscular fossem absolutamente favoráveis. Era uma sensação angustiosa a de não conseguir fotografar. Não acredito nesse papo de "instante decisivo". Em consonância com Sebastião Salgado, creio que todos os instantes são determinantes. O que vale é encadear sua sucessão na esteira de uma narrativa possível. Pois bem, meu dilema era saber por onde começar. Afinal, que 'história' desejava eu relatar com imagens? Não consegui responder a este questionamento. Trouxe na câmera uma miscelânea desconexa carente de sinapses.

Afastei-me do "casco histórico" em direção aos bairros menos turísticos de Colônia. Atravessei multidões alvoroçadas de crianças e adolescentes que concluíam sua jornada de estudos nas escolas e liceus locais. Subi tímidas ladeiras de onde avistei o suave anoitecer da enseada. Caminhei por uma avenida na qual o som dos automóveis se mesclava com gritos de caturritas verdes e azuis, abafando as risadas do menininho de suéter claro que brincava com seu cachorro. Guardei a câmera acreditando ser possível integrar-me aquela paisagem de anônimos.

Quando já o dilúculo era incontestável e seus tons manchavam mornamente a cidade, retornei ao "bairro histórico" (que bairro não é histórico?). Sobre um mirante branco, vi o sol laranja submergir no Rio da Prata. A orla fervia mum burburinho poliglota matizado por ceceos ibéricos, chiada maciez lusófona e acentos italianados do castelhano portenho. Com suas objetivas apontadas para o rio, as câmeras clicavam enlouquecidamente. Apoiado no guardacorpo, fui solicitado por duas espanholas para fotografá-las: queriam um retrato adornado pelo pôr-do-sol. A primeira foto saiu razoável. Céu avermelhado, esfera solar semi-velada pela linha do horizonte escurecida e faces suavemente iluminadas pelo flash de preenchimento. "Sí, está buena", disseram. "Pero mira que hay alguien aquí", acrescentou uma delas sinalizando com o dedo o rosto de alguém desconhecido que, acidentalmente, havia sido captado na imagem. "¿Nos puedes sacar otra que no salga nadie?", perguntou uma das mocinhas. "¿Cómo no?", respondi procedendo aos ajustes necessários para excluir qualquer rebarba humana que fosse inconveniente ao propósito daquela fotografia.

Que propósito era esse? Talvez expressar uma ideia de exclusividade do momento. As duas e o sol, nada mais, ninguém mais. Nenhuma mácula, nenhum borrão humano que delatasse o contexto absolutamente turístico onde se produziu a imagem. Aquela foto, contudo, na sua forma, no seu enquadramento, nas suas margens, era fruto do acomodamento imposto pelo encontro entre um ideal de pureza do momento, disfrute individual do que é belo e as contingências da aglomeração de pessoas. Eu mesmo, ao fim e ao cabo, estava afetado por esse ideal. A angústia inicial de não poder fotografar provinha, justamente, dessa necessidade de encontrar algo autêntico num espaço minado de cartões postais. Encontrava-me incômodo diante de uma situação que me habilitava apenas a narrar percursos turístico. Aquela era, contudo, minha posição, o lugar a partir do qual poderia ousar qualquer intento narrativo, imagético ou não. Esquivar esta realidade das minhas fotos soava a fraude, a inconsistência, a pó.

Quando percorri os bairros mais afastados do circuito turístico, só consegui acumular fragmentos dispersos de algum roteiro que não estava apto a interpretar. Sequer sabia como posicionar-me diante dos elementos que se me apresentavam. Tentava fugir da rota na qual estava compelido a permanecer pelas próprias características de minha presença em Colônia: deveria regressar religiosamente ao hotel, tinha na bagagem as passagens de volta, poucos nomes de rua me soavam conhecidos, pouquíssimas fachadas, varandas ou pátios sugeriam memórias, recordações. Quase nada tinha a dizer ou perguntar (fora do bordão turístico) para aqueles que cruzavam por mim nas esquinas e praças.

Tanto meu inibimento ao produzir imagens quanto a necessidade de exclusividade das meninas espanholas, aparentam ser reflexos de um mesmo temor: retornar para casa trazendo apenas cinzas entre os dedos. Nada de autêntico, nada de concreto, nada espetacular ou inédito. Lévi-Strauss, melancolicamente, fez esta constatação ao abalançar o saldo de suas viagens. Por mais que tenhamos ressalvas consoladoras a fazer diante de conclusões tão pessimistas, é-nos difícil evadir dessa sensação amarga profundamente relacionada com um ideal de viagem que atravessa dezenas de gerações no ocidente.

Relatos de viagem densos e profícuos são possíveis, claro. Contudo, sua produção estará subordinada ao reconhecimento de um lugar específico de inserção que transcende em muito o mero desejo do sujeito. Abdico do desprendimento ostentado pelo peregrino, nego o egocentrismo do explorador e o altruísmo do missionário. O ativismo circunstacial do etnógrafo fica reservado para os momentos em que a disponibilidade de tempo me possibilite cair em redes, acessar e produzir, coletivamente, memórias. Pisarei as ruas do mundo como turista sempre e quando a passagem de volta for imprescindível na bagagem. Turista ousado, é certo. Turista frustrado de antemão, como deve ser. No fim das viagens falarei de mim, de mim entre os outros.

Foto: Alex Moraes - Colonia - jul/10

domingo, 16 de maio de 2010

O mito de Dahrmo Madu

-relato fantástico-


Os iroami, nativos da ilha de Pahdrei Majdou, situada na micronésia, acreditam que um amor apenas é efetivo quando permanece rotundamente não correspondido. Sendo assim, duas pessoas podem chegar a amar-se, mas jamais ao mesmo tempo. Na maioria dos casamentos, os cônjuges ou não se amam (o que é absolutamente aceitável), ou se revezam ao longo dos anos no exercício do amar. O vocábulo "dòrd-cohtveló", que designa o sentimento de amar, também se usa para definir a frustração.

É comum, em Pahdrei Majdou, que os filhos afirmem não amar suas mães. Soaria de péssimo gosto sugerir que se nutre amor pela progenitora. Às mães, se lhes reserva o direito e a obrigação de amar sem que seus rebentos ponham em xeque a pureza do que elas sentem. Só se está autorizado a manifestar amor pela mãe depois da morte desta. Anula-se, assim, a possibilidade de concomitância, ficando preservados, em essência, os afetos que regem a unidade e a solidariedade familiar.

Os nativos evocam um mito - o de Dahrmo Madu - para embasar sua crença na impossibilidade do amor recíproco. Lançando mão de relatos coletados por vários investigadores que aportaram na região, é possível recompor o essencial da história.

O demiurgo Dahrmo Madu sonhou com o homem e com a mulher. No sonho de Dahrmo Madu, o homem e a mulher sonharam que deus os estava sonhando. Foi composta, desta forma, a simbiose cósmica que sustenta o mundo e coloca os seres humanos sintonizados com o divino. Em seu sonho, a divindade profetizou: "juntos, o homem e a mulher se amarão, viverão e procriarão". Cumprindo com o primeiro ditame do criador, o homem e a mulher trataram, assiduamente, de construir o amor. Passaram incontáveis crepúsculos e amanheceres manifestando mutuamente e de todas as formas possíveis, a intensidade do que nutriam um com relação ao outro. Eram tão fortes os quereres de ambos, que lhes foi impossível tomar consciência do próprio amor. Não estavam jamais satisfeitos, sentiam-se em dívida permanente com o criador. Não sabiam até que ponto as ordens divinas estavam sendo cumpridas. Preocupado com esta situação, assombrado com a possibilidade de que jamais a humanidade alcançasse certeza de estar amando, o demiurgo sonhou com outra mulher que, por sua vez, sonhou que deus a estava sonhando. Esta mulher recebeu as seguintes ordens: "não deverás corresponder ao amor de outro homem ainda que vivas e procries com ele". Quando aqueles três seres humanos recém criados se encontraram, o homem, cumprindo com os desígnios da divindade, buscou amar a segunda mulher. Não foi nem mininamente correspondido. Percebeu a dimensão do seu sentimento ao defrontá-lo com a inércia completa da nova companheira: estava enamorado. Quanto à primeira mulher, percebendo que o homem havia conseguido amar - amar a outra -, sentiu uma dor violenta, conscientizou-se, imediatamente, do amor. Era já tarde. O primeiro homem casou-se com a segunda mulher e tiveram um filho. Como a criança recém nascida, sonhada pelos seres humanos, não estava incumbida a priori de exercer qualquer sentimento com relação a ninguém, a segunda mulher achou válido amá-la, mas recomendou-lhe que apenas amasse uma pessoa que não pudesse corresponder aos seus afetos. O menino, quando púbere, apaixonou-se pela primeira mulher - que ainda amava o primeiro homem - e com ela se casou sem nunca ter seus quereres retribuídos. A ingratidão foi o preço a ser pago pela humanidade ao receber o dom de amar conscientemente.

Trabalhos recentes sugerem que alguns aspectos da cosmologia de Pahdrei Majdou podem ser identificados por todo o Pacífico e que, em realidade, nesta pequena ilha da micronésia, se verifica uma exacerbação de noções do amor presentes em diversas regiões da Oceania. Estudos mais arrojados e, por isso mesmo, faltos de qualquer credibilidade acadêmica, chegam a propor que os intensos circuitos de trocas que atravessam o Pacífico há milênios tornam difícil determinar a abrangência desta "filosofia" do amor classificada como 'iroami'. Se aceitássemos a falácia dos trabalhos ditos de "vanguarda", acabaríamos por concluir que o ideal de amor "iroami" está universalizado e sofre pequenas oscilações cujo caráter é meramente situacional. Um absurdo. De ser assim, deveríamos interpretar clássicos do romantismo ocidental como "Romeu e Julieta" enquanto ecos de discursos dissidentes e quase blasfêmicos - ainda que altamente persuasivos. Discursos periféricos à uma suposta arte concreta e generalizada do amor entre os homens.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Não era a mesma quando voltou

Depois de chafurdar em toda a lama porca que se acumula nas duas margens do Rio da Prata, depois de perder os botões da calça, aniquilar o corpo por dentro e por fora a ponto de beirar a decrepitude, achou por bem retornar.

De volta, viu rostos faceiros, sentiu a língua enrolar - e não só pelo álcool -, as palavras fugirem, constatou cicatrizes perenes no idioma e nos pulmões. Gostou.

Não podia abster-se, contudo, de uma purificação. A ideia de purificação agradava-o. Pudera! Depois de tanta porrificação. Porrificação sem culpa, é certo. Porrificação que, por outro lado, já não cabia no seu admirável mundo velho.

Contou com a complacência dos discursos, viveu o inominável na dor calada que umas ou outras seguraram na garganta. Aceitou, por certo tempo, o sacrifício de não poder re-traduzir-se nos termos dos lugares e pessoas que o tinham esperado. Num ideal de ascetismo, decidiu empunhar a chibata da esperança arruinada e torpe, marcando com ela sorrisos azedos em seu rosto durante meses. Todos deveriam sofrer nessa longa peregrinagem expiatória. Purificar-se não era retornar ao estado anterior, mas sim frustrar-se definitivamente com o que lhe restava depois de tanto tesão, tanto andar e tanta merda disso decorrente.

É verdade que não impôs sofrimento nenhum a ninguém. Pelo menos não deliberadamente. Aceitou a contingência dos sofreres alheios e dela retirou o essencial para a construção de uma nova moralidade, sóbria, amnésica, comprometida em reencontrar os equívocos do passado exatamente na esquina seguinte de futuro. Aceitou definir-se através da dor e da perplexidade dos outros. Aceitou ser o ponto nevrálgico da vida de uma mulher. Sabia que, cedo ou tarde, viriam a ruina e a solidão, varrendo todas as extravagâncias e utopias, deixando de pé apenas o estritamente possível, deixando-o cara a cara com seu novo estado de espírito.

Vendo sofrer, tentou chorar mas não pôde. Seu pranto não teria razão. Compadecer-se de alguém é não olhar para si mesmo.

A purificação ainda não havia sido alcançada. Era preciso sofrer as consequencias de algo por hora impreciso. As linhas básicas e gerais do que ele seria daqui para frente eram fugidias. A realidade concreta teimava em manter-se impávida sob um céu tormentoso.

Numa manhã qualquer, acordou acompanhado - como sempre. Empreendeu a banal e quase desnecessária despedida matinal - esta que nos livra de culpa se, eventualmente, ao longo do dia, um sinistro qualquer aniquila nosso concubino/a: "pelo menos eu pude me despedir dele".

Ficou em casa e alguém se foi. De regresso ao cômodo, viu roupeiro desfalcado.

Algo estava errado. Seguramente, enquanto ele dormia, ela obrava uma partida triunfal e muda. Esvaziava roupeiros, bancadas; coletava brinquinhos e pulseiras, roupa interior: insignificâncias que, quando ausentes, deixavam crateras na paisagem doméstica. Entre tantos vazios - de fato o quarto era uma paisagem penumbrenta e pontilhada de pequenos vácuos que ainda não significavam nada - , resplandecia uma folha pautada, completamente deslocada, absolutamente autoritária, indisposta ao diálogo. Como podia não ter reparado antes naquele pedaço de papel manchado por letras de menininha? Como podia não ter notado qualquer mudança de expressão no rosto da mulher pequenina que há poucos minutos cruzou o portão do pátio dianteiro.

"Fui embora, não volto mais". Isso realmente impressionou-o. Sentiu-se absolutamente só. Finalmente, o último ser que lhe restava conseguiu frustrá-lo, suicidou-se da sua vida.

Mas um dia ela retornou. Uma ou duas semanas após a despedida crucial habilmente disfarçada de despedida banal. Então ele provou o desespero. A frase do papel pautado cobrava sentido cabal diante da aparente contradição dos fatos. A menininha, a mulherzinha, com efeito, não voltara. Tudo havia mudado: seus olhos, sua expressão, a forma como o lábio superior repousa sobre o inferior durante os intervalos da fala. Definitivamente, estava de regresso e não era a mesma. Jamais seria.

Puro e despojado, punido com a desaparição repentina do amor de outrem, saqueado de todo substrato humano que pudesse respaldar ódio, ternura ou sadismo, sentia-se pronto, novamente, para devotar-se a outras mulheres erradas.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

sans me rendre compte

Une nuit
sans me rendre compte
J'ai vu le diable.
Je l'ai vu
en los ojos de una mujer.
No titubeé.
Hoje, só, choro.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Os Homens Puros da Azenha

- relato fantástico -

A temática dos Homens Puros da Azenha vem instigando toda sorte de jornalistas e outros especialistas-do-que-é-genérico. Confesso que o assunto me atrai, até porque vivo próximo do suposto berço da famigerada confraria. Como contributo ao trabalho de desvendar os meandros da racionalidade dos Homens Puros, divulgo este pequeno artigo que seria, sem dúvida, publicado na revista O Cruzeiro não fosse a pesada censura imposta sobre referido semanário na década de 1970. Penso se tratar da última (e mais recente) [tentativa de] alusão pública aos Homens Puros.

“A confraria dos homens puros resistiu bravamente ao avanço do comércio e da indústria na Azenha. Relatos policiais do século XVIII informam que, desde o aparecimento dos primeiros moinhos na região, houve cidadãos reácios a nova matriz produtiva. Estes realizavam módicos protestos diante das hélices alvoroçadas. Tais manifestações consistiam em rituais baseados no consumo ostensivo do tabaco negro e do vinho tinto durante todo o período abarcado pela jornada de trabalho dos operários (então de 60 horas semanais). Dizem os amarelados papeis do Arquivo Público, que os homens puros, rejeitando a laboriosa rotina das moendas, acampavam às suas portas para estremecer a disciplina fabril. Os documentos históricos, contudo, pecam em não fornecer descrições precisas a respeito da procedência desses sujeitos. Não sabemos, portanto, quem eram e nem mesmo a qual setor social pertenciam.

Era prática, nos famosos acampamentos, que alguém se encarregasse de ofertar – a preços simbólicos – bebida e cigarros para os participantes. Na medida em que os moinhos se avolumaram e, por conseguinte, os acampamentos também, o comércio de víveres (permitam-me a ironia no uso da palavra) ganhou força. Em meados do século XIX, as primitivas fábricas de farinha já tinham perdido sua pujança, contudo os comerciantes de bebida e tabaco viviam seu apogeu. Estes homens gozavam de farta clientela, sem dúvida arrebanhada à época dos combativos acampamentos. Hoje em dia, são eles (ou, melhor dizendo, seus descendentes) que controlam a venda ostensiva de pequenezes da Azenha.

A Confraria dos Homens Puros segue rejeitando aqueles filhos pródigos que, com deslavado utilitarismo, se aproveitaram dos históricos protestos anti-moinho para converter a Azenha naquilo que certos arquitetos oitocentistas haviam chamado de “bairro com vocação comercial”. Entretanto, sem abandonar um profundo espírito auto-crítico, estes mesmos homens puros reconhecem, em seus rituais de intoxicação coletiva, que tiveram certa parcela de culpa no que consideram a “degradação final” do bairro. Ao lutar contra a indústria, fomentadora do progresso comercial, os confrades alentaram as formas mais mesquinhas do varejo.

Dagoberto de Souza, folclorista de inícios do século XX, chegou a acompanhar, durante cerca de oito anos, as atividades da Confraria dos Homens Puros da Azenha. Encontrava-se com eles nos bares da região ambicionando remontar o repertório de clichês e chavões utilizados por aqueles idôneos cavalheiros no momento de combater o que julgavam “afrontas ao bem viver e ao bem querer”. Os escritos de Souza apresentam as mais sólidas descrições disponíveis acerca dos Homens Puros e, por isso mesmo, servem como substrato à presente explanação. No terceiro tomo de “Breves apontamentos sobre as confrarias masculinas do Brasil meridional”, Dagoberto elenca alguns bordões correntes entre os Homens Puros:

- “De que outra cousa posso viver senão viver do que sei fazer?”
- “A fumar m'ensinam os confrades, a beber m'ensinou a avó. De amar me dão lição as moçoilas; para cantar m'oferecem razão. A mal-falar m'obrigo, portanto, de quem m'ensina a ensacar feijão”.
- “Dizem que bom partido há n'independencia, mulher de corpinho e milhão, mas não hei de negar, confrade, que mais barato me sai o cantão*”

Nota de Dagoberto:

* Depois de muito revirar a Biblioteca Pública com auxílio do Doutor Romero Figueiredo, vim a inteirar-me que o “cantão” evocado pelos bordões dos Homens Puros alude, em verdade, aqueles prostíbulos que se amontoam na Rua da Praia desde o crepúsculo da última centúria.

Após Dagoberto de Souza, poucos estudiosos se aventuraram a rastrear os expedientes da Confraria dos Homens Puros da Azenha. João Ângelo da Cunha Neto foi um deles. Engenheiro de profissão, João soube, com maestria, deslindar os princípios morais que serviam de base àquela obscura agremiação masculina da zona Centro-Sul. Em 1958, Cunha Neto publicou sucinto mas elucidativo artigo na revista de bairro “O Coqueiro”, onde manifestava sua admiração pelo que considerava “a mais original das idiossincrasias do Sul da metrópole”:

Mesmo há pouco tendo estabelecido residência nestas bandas, já tenho resposta para quando me inquerem sobre o que de bom brinda o bairro. Os Homens Puros, pois! Estes distintos cavalheiros, se bem não são o bastião moral da vizinhança, infundem em nossas noites os últimos ecos duma boemia nostálgica e romântica que bem poderia, não fosse o avanço das boîtes, seguir representando o restolho de originalidade desta urbe. Devemos vangloriar-nos destes cidadãos que muitos tildam “ébrios nostálgicos”, pois graças a sua aversão às contingências do progresso, instilam, entre mourões de concreto, algum reduto humanizado cujos serviços nos serão caros em hora de desesperação. As grandes alamedas estão impávidas - não se esqueçam - frente às angústias do homem quebrantado.

Desafortunadamente, o relato de João Ângelo é o último registro documental dos Homens Puros. Toda a informação atual que deles dispomos provem de relatos fragmentados. Trata-se de anedotas vulgares, fartamente disponíveis em qualquer moquifo capitalino. Elas afirmam que os homens puros se diasporizaram na década de sessenta e hoje pregam em todas as zonas da metrópole. De Buenos Aires chegam duvidosos informes falando da aproximação entre os Hombres Sensibles del Barrio de Flores e os Homens Puros da Azenha. Estes últimos teriam, sob pretexto do exílio político, fixado domicílio nos arrabaldes da capital argentina para, ao lado dos seus congêneres portenhos, fundar uma seita milenarista.

É quase impossível não manter cautelosa incredulidade diante de semelhantes elocubrações, certamente forjadas pelos históricos inimigos dos Homens Puros da Azenha. Particularmente, acredito ser inviável a teoria da dispersão, pois os homens puros, desde seus primórdios, estiveram espalhados por aí, alojados em lugar nenhum. Juntaram-se episodicamente no intento de demonstrar rechaço perante uma prática que os perturbava – a saber, a construção dos moinhos. Depois, organizaram fortuitas reuniões de bar, absolutamente informais. Sequer eram, portanto, os Homens Puros da Azenha. Arriscaria dizer que passaram a ser assim chamados por seus detratores. Na sua ingenuidade de folclorista, Dagoberto de Souza reproduziu uma categoria absolutamente artificial. Esta explicação, por si só, é suficiente para desbancar a suposição de que os Homens Puros – enquanto unidade – se exilaram em Buenos Aires.

Admito, entretanto, não ser eu o mais apto para responder qual destino tiveram aqueles que reivindicam a herança moral dos quixotes do século XVIII. Contento-me com evocá-los, torná-los plausíveis em minhas crônicas, sem perder a esperança de que seus ecos e gestos subsistam para além das letras".

segunda-feira, 1 de março de 2010

A ETERNIDADE

A força invencível que impulsiona o mundo não são os amores felizes, mas sim os contrariados – bem disse Garcia Márquez em outras palavras do seu “Memórias de Minhas Putas Tristes”.

Eu, que sei pouco e que pari este filme duma observância ligeira, descobri que o tempo é o que poderia me ditar a história. Mas não o tempo do senso-comum, o tempo fortuito e do acaso, e sim o tempo-imagem, o tempo que se pode esculpir. Dos amores contrariados, dissolvidos, visualizei a fábula. Nasceu junto com a imagem de São-Felix-Cachoeira, a ponte e seus lampejos noturnos, o silêncio da madrugada, o apito do trem, a música, a eterna música fabricada no sonho, no inconsciente do Recôncavo Negro e Tropical.

A memória, objeto do meu estudo fílmico, aflora também neste filme. Os fluxos, as elipses, o ritmo pausado, as sobreposições, as imagens-poemas, tudo é janela para livre interpretação. Em A Eternidade os signos estão impressos, expostos, vivos. Matéria pra pensar, pra sentir. Ecos de reverberação da angústia, candeias da melancolia, tons da fome e do desespero, luz, luz do amor e da sorte.

Chora o clarinete, devaneia o coração. É ela, acesa na noite, ligeira na água, companheira no vício, generosa na falta, é ela, encontrada em Rimbaud, emancipada em Eliot, reiventada por nós, é ela. O instante, o longo, o vivo, o morto, o terreno, o espírito, tudo cabe nela. O preto, o branco, o amarelo, o colorido. A eternidade é colorida, e a razão para ser se nutre do branco, que representa a unidade do tempo, e que dissolvido tem em seu espectro a palheta do mundo, de cores e de sensações. É a partir desta breve reflexão que convido-os para ver e ouvir, fruir ao encontro de A Eternidade.

Confiram o trailer: