domingo, 16 de janeiro de 2011

La Abuela Grillo

Compartilho com vocês um belo curta-metragem boliviano. Inspirada no mito de "la abuela grillo", a animação estabelece uma narrativa que nos fala da dicotomia entre direitos essenciais e lógicas de mercado. Abaixo segue uma breve descrição do conteúdo da obra obtida no seguinte sítio: http://www.cambio.bo/noticia.php?fecha=2010-05-09&idn=18758

La escritora Liliana De la Quintana nos explica que esta obra de animación tiene su origen primigenio en un mito del Pueblo Ayoreo (pueblo indígena del chaco boliviano), que narra su pedido de lluvia a la abuela grillo Direjnám, creadora del agua, regente de la lluvia y de la sequía.

Este mito fue recuperado en la serie Mitología Indígena para niños, de la editorial Nicobis, en un escrito de De la Quintana que cuenta con ilustraciones de Antonieta Medeiros. La obra fue seleccionada en la lista de honor de la Organización Internacional para el Libro Juvenil (IBBY, por sus siglas en inglés).

Así, el libro de De la Quintana es la base directa del audiovisual, al que se añade, en la animación, la problemática contemporánea del tema del agua como derecho y mercancía.

Según De la Quintana, Alfredo Ovando trabajó el pre-guión y coorganizó con Hanne Pedersen el Taller de Animación Bolivia/Dinamarca, en el que se desarrolló la propuesta. El guión final y la animación se consolidaron con Denis Chapon.

La escritora destaca además que el Gobierno de Dinamarca apoyó con la realización de dos talleres de capacitación en animación, uno realizado en Bolivia, dirigido a 23 alumnos, y otro posterior en Dinamarca, con ocho becados bolivianos.

En Dinamarca, Hanne Pedersen, directora de Animation Workshop, fue la principal responsable del proyecto y se nombró a Ovando, director de Nicobis, como responsable en Bolivia, quien apoyado en la Productora Escorzo, dirigida por Reynaldo Lima e Iván Castro, se constituyó en base principal del Taller de Animación en Bolivia.

Los resultados de este taller dirigido por Denis Chapon e Israel Hernández son la capacitación de 23 animadores, el guión avanzado de La Abuela Grillo y la selección de un grupo de ocho becarios para continuar la animación en Dinamarca.

Así, bajo la dirección de Denis Chapon y por el trabajo de los ocho becados, se completa el cortometraje en Dinamarca.

Además, De la Quintana considera determinante la participación de Luzmila Carpio —consagrada cantante de música indígena boliviana y embajadora de Bolivia en Francia— y de los músicos Josué Córdova, Saúl Callejas, Luis Gutiérrez y Pablo Pico.

Entre los animadores capacitados en Bolivia y Dinamarca estuvieron los reconocidos artistas Alejandro Salazar, Joaquín Cuevas, Susana Villegas, Cecilia Delgado, Mauricio Sejas, Román Nina, Miguel Mealla y Salvador Pomar.

Definitivamente vale la pena ver el resultado de este trabajo, que por su calidad marca un hito en la animación boliviana.

Vídeo

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

“Caso Battisti”: Rede Globo e ultra-direita italiana protestam em uníssono


Alex Martins Moraes

Há algum tempo que eu planejava escrever algo a respeito da tendência anti-democrática manifestada pela imprensa brasileira. Era minha intenção demonstrar que práticas monopolistas no âmbito do mercado somadas a um alinhamento político com a direita convertiam as grandes empresas da informação em opositoras concretas do aprofundamento democrático neste país. Não se trata apenas de um problema com conteúdos ou estilos de abordagem dos fatos noticiados. Se fosse assim, bastaria organizar uma oposição adequada, o que, aliás, os veículos alternativos já estão tentando fazer. Ocorre que a estrutura do campo jornalístico brasileiro ameaça as grandes ambições da constituição de 1988. A mídia faz precipitar sobre a sociedade brasileira certa cultura de debate que valoriza o exercício de manutenção e reprodução do senso comum, este eficaz alimento das consciências que desejam expurgar de si quaisquer ímpetos "ideológicos" ou "autoritários". Só que o senso comum não é ingênuo, ele espelha um sistema de valores que possui certa coerência e atende a determinados interesses. Geralmente, tais interesses constituem o que costumamos chamar de "status quo". É necessário diminuir o raio de abrangência da mídia comercial para dar vazão à emergência de outras vozes. Numa democracia que almeja o pluralismo, deve-se expandir ao máximo possível o direito das pessoas de narrarem as verdades de sua própria experiência social.

Um fato recente nos ajuda a economizar longos resgates históricos e sistematizações teóricas para demonstrar o compromisso da mega imprensa com ideais antidemocráticos. No último dia do seu mandato, o ex-presidente Lula vetou a extradição de Cesare Battisti para a Itália. Ótimos artigos publicados no circuito alternativo detalham os aspectos históricos e jurídicos que rodeiam o “caso Battisti”. Não cabem dúvidas de que a decisão tomada por Lula é, pelo menos, aceitável e encontra suas justificativas no amplo manancial do direito internacional contemporâneo (sugiro a leitura do relatório elaborado pelo ex-ministro da justiça Tarso Genro ao conceder refúgio político a Battisti em 15 de janeiro de 2009: http://www.tarsogenro.com.br/artigos/fullnews.php?id=90). Quero centrar minha atenção no tipo de cobertura que a televisão aberta destinou aos últimos desdobramentos do "caso Battisti".

No dia 4 de janeiro de 2011, o Jornal Nacional da Rede Globo apresentou uma reportagem relativamente extensa onde se noticiava a reação de alguns grupos políticos italianos frente à opção do governo brasileiro por não extraditar o ex-ativista Cesare Battisti. Como o editorial da Globo desconhece os pronomes indefinidos, a expressão “alguns grupos políticos” foi alterada para “italianos” em uma frase do tipo: “italianos protestaram na frente da embaixada brasileira”. Posteriormente, a correspondente internacional da Rede Globo informou, diretamente de Roma, que partidos de direita e de esquerda teriam manifestado sua oposição a não-extradição do “ex-terrorista” Cesare Battisti. Se discutíssemos o tipo de valoração moral embutida no termo “ex-terrorista”, facilmente veríamos que está relacionado com a retórica da direita italiana (e brasileira, é claro). Seria, contudo, chover no molhado fazer a afirmação de que todo e qualquer termo que utilizamos em nosso cotidiano atende a interesses determinados. Não existe neutralidade nas palavras, até porque elas só fazem sentido em conjunturas sociais específicas das quais a ação política nunca está alheia. Somos animais políticos, afinal. Desejo iluminar, aqui, outro aspecto da reportagem, um pouco menos óbvio. Destrinchá-lo exige certo esforço no sentido de buscar dados alternativos que complexifiquem a notícia dos protestos na Itália oferecida pelo Jornal Nacional.

Ao dizer que grupos políticos de “esquerda e de direita” participaram das manifestações na embaixada brasileira, a correspondente européia da Rede Globo deu a entender que existe unanimidade dos italianos em opor-se à decisão do governo brasileiro. Não vem ao caso saber se ela, pessoalmente, quis dizer isso. O fato é que disse. Tampouco importa se estava mal informada sobre a composição do espectro político italiano. O fato é que se contentou com as informações que recebeu das suas fontes sem opor-lhes nenhuma crítica. A grande imprensa é assim, pensa rápido e reproduz mais rápido ainda. Ela se alimenta do senso comum, que é objetivo e transparente, “ingênuo” e espontâneo. Battisti “é” um terrorista, portanto, ninguém em sã consciência poderia defendê-lo. A lógica do raciocínio é tão simples quanto perversa.

Recorri a fontes italianas para conhecer quais grupos “de esquerda e de direita” protagonizaram os protestos em Roma, Milão e Turim. Não foi difícil encontrar falhas na reportagem da Globo. O diário La Reppublica (segundo em tiragem, pertencente ao grupo Espresso do financista Carlo de Benedetti) enumera sete coletivos políticos que se manifestaram publicamente a favor da extradição de Battisti: PDL (Povo da Liberdade), UDC (União dos Democratas Cristãos e de Centro), Movimento pela Itália, PD (Partido Democrático), IDV (Itália dos Valores), La Destra (A Direita) e Liga Norte. Os únicos partidos que não se auto-declaram de direita nesta lista são UDC, PD, IDV. O primeiro deles se considera de centro e os dois últimos estão na centro-esquerda, o que se poderia chamar de social democracia européia. Todos os demais partidos integram setores ultra-conservadores e mesmo fascistas da sociedade italiana. PDL é a agremiação de Silvio Berlusconi; Movimento pela Itália lidera, atualmente, uma campanha anti-musulmana e xenófoba; La Destra rompeu com o partido de Berlusconi por considerá-lo muito “moderado” e Liga do Norte representa um nacionalismo separatista e chauvinista que prega a expulsão de imigrantes provindos de países não-europeus. Diante destas informações já seria possível afirmar que a reportagem do Jornal Nacional é, no mínimo, reducionista. Entretanto, a má-fé não pára por aí. Os jornalistas da Rede Globo se esqueceram de noticiar outro acontecimento que teve visibilidade inclusive na imprensa conservadora italiana: foram fixados em diversos locais do centro de Roma chamativos cartazes (na foto) a favor da não extradição de Battisti. A frase principal declara: “Battisti livre”. Outro trecho diz o seguinte: “A perseguição terminou. A Inquisição cessou graças à determinação e coragem do presidente Lula. Os guardiões do capital, pelo menos desta vez, foram embora com as mãos vazias”.

Todas estas informações contribuem para iluminar o lado obscuro da cobertura jornalística hegemônica em torno do “caso Battisti’. Na reportagem da qual me ocupei aqui, a manipulação operou em dois movimentos. Primeiro, a opinião manifestada por grupos de ultra-direita e por pequenos e acanhados partidos de centro italianos foi pinçada pelos repórteres globais. Depois, aquela mesma opinião converteu-se, magicamente, em síntese da repercussão internacional da não extradição de Battisti. Ao conhecermos alguns dados obliterados pela redação da Rede Globo, podemos localizar com mais precisão que tipo de ideologia recebe destaque, diariamente, no noticiário nacional da família Marinho. Causa assombro e preocupação que uma rede de televisão monopolista se comporte como porta-voz do fascismo em um país cuja carta constitucional pugna pelo aprofundamento e pluralização dos direitos sociais que positivam e dignificam a diversidade de idéias, demandas e pontos de vista.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Os meios e seus especialistas

Não deixo de surpreender-me com a magnitude do cinismo midiático no que tange a retórica da pluralidade. Qualquer observador atento pôde constatar, durante a cobertura das eleições nacionais, quais são os verdadeiros lobistas da dita opinião pública. Nos diversos canais da TV aberta, vimos se revesarem as cartas marcadas de sempre que, ostentando títulos acadêmicos ou um suposto reconhecimento profissional, deram contudentes aulas de invencionismo caracterizadas, na maioria dos casos, por um tom retórico altamente prescritivo. Nada pode estar mais distante da reflexão científica.

Sujeitos que, em seus respectivos campos de saber, não gozam do mais mínimo reconhecimento se convertem, por mágica, nos respeitáveis arautos do bom senso. Investidos de uma legitimidade precária, os "especialistas" transitam com desenvoltura pelos estúdios da grande mídia esgrimindo constatações que em muito extrapolam as reais aptidões analíticas que seus títulos acadêmicos atestam. Esta é a "pluralidade" que a imprensa brasileira admira? É esta arte de fazer o mesmo discurso ser repetido por meia dúzia de bocas diferentes que eles classificam como "exercício crítico da imprensa livre"?

Preocupa a forma como setores hegemônicos da imprensa brasileira introduzem na esfera pública certas práticas informativas que minam as próprias ambições da democracia. Mais assombroso, contudo, é que não lhes seja feita a adequada oposição. Ecoam, como se fossem unívocas, verdades fabricadas em obscuras redações. Naturalizam-se práticas de debate altamente perniciosas para um sistema político como o brasileiro, cuja carta constitucional pugna pelo aprofundamento e pluralização dos direitos sociais que positivam e dignificam a diversidade. Produz-se uma espécie de esquizofrenia que leva os jornalistas a acreditarem piamente nos dados que, ainda ontem, eram elocubrados por eles mesmos no contexto de articulações eleitoreiras ou mesmo golpistas (lembremos de 2006).

Como é característico do campo jornalístico, o que foi dito num grande jornal se reproduz nos pequenos meios; o especialista mistificado pela cadeia de TV x deve, necessariamente, ser convidado a opinar na emissora y; ninguém pode ficar atrás de ninguém na árdua tarefa de repetir as mesmas coisas em uníssono. Neste circuito, que tem seus acessos e contornos definidos pelo ranço conservador dos ícones do bom jornalismo, flui uma articulação de conjunto que passa a ser anônima (posto que é consensual), mas não perde seu caráter programático, estratégico. E quando falo de estratégia, me refiro a um repertório mais ou menos regular de práticas discursivas que servem para atribuir valores morais diferenciados a sujeitos diversos; que servem para produzir um vocabulário de interpelação que é, acima de tudo, um vocabulário político, ou seja, eficiente para a luta política. Desaba, assim, diante do olhar atento e do ouvido aguçado, todo o suposto ascetismo que nossos "formadores de opinião" ritualizam em seus falsos fóruns de debate plural. Fóruns nos quais a participação de qualquer um está condicionada pelo consenso (ou o termo correto seria adesão?) prévio.

Os meios fazem precipitar sobre a sociedade brasileira certa cultura de debate que valoriza o exercício de manutenção e reprodução do senso comum, este eficaz alimento das consciências que desejam expurgar de si quaisquer ímpetos "ideológicos" ou "autoritários". No fim da história, cá nos encontramos nós, constrangidos a pensar o futuro e a própria ação no presente pelo viés das forças sociais que derrotamos ainda ontem, pelo menos no plano eleitoral.


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Manifesto dos intelectuais e artistas pró Dilma Rousseff

Dilma em Porto Alegre, primeiro ato da campanha, 2010
Foto: Alex Moraes

N
ós, que no primeiro turno votamos em distintos candidatos e em diferentes
partidos, nos unimos para apoiar Dilma Rousseff.

Fazemos isso por sentir que é nosso dever somar forças para garantir os avanços
alcançados. Para prosseguirmos juntos na construção de um país capaz de um
crescimento econômico que signifique desenvolvimento para todos, que preserve os
bens e serviços da natureza, um país socialmente justo, que continue acelerando
a inclusão social, que consolide, soberano, sua nova posição no cenário
internacional. Um país que priorize a educação, a cultura, a sustentabilidade, a
erradicação da miséria e da desigualdade social. Um país que preserve sua
dignidade reconquistada.

Entendemos que essas são condições essenciais para que seja possível atender às
necessidades básicas do povo, fortalecer a cidadania, assegurar a cada
brasileiro seus direitos fundamentais.
Entendemos que é essencial seguir reconstruindo o Estado, para garantir o
desenvolvimento sustentável, com justiça social e projeção de uma política
externa soberana e solidária.

Entendemos que, muito mais que uma candidatura, o que está em jogo é o que foi
conquistado.

Por tudo isso, declaramos em conjunto o apoio a Dilma Rousseff. É hora de unir
nossas forças no segundo turno para garantir as conquistas e continuarmos na
direção de uma sociedade justa, solidária e soberana. 

Leonardo Boff - Chico Buarque - Fernando Moraes - Emir Sader - Eric Nepomuceno-
Regina Machado - Marcelo Laffitte

Para aderir, escrever a emirsader@uol.com.br e ericnepomuceno@uol.com.br

terça-feira, 3 de agosto de 2010

No fim das viagens



Andei por Colônia do Sacramento na semana passada. Foi a terceira vez em que tive oportunidade de percorrer uma das mais antigas cidades uruguaias. Logicamente dediquei horas da noite e da tarde para passear entre os casarios setecentistas da época portuguesa, dividindo o espaço das estreitas ruas com volumosa quantidade de turistas, a maioria deles procedentes do Brasil e da Argentina.

Câmera em mãos, me vi arrebatado por uma profunda falta de inspiração, não tinha vontade alguma de fazer o registro fotográfico daqueles locais. Nenhuma perspectiva parecia-me adequada, ainda que os golpes de luz crepuscular fossem absolutamente favoráveis. Era uma sensação angustiosa a de não conseguir fotografar. Não acredito nesse papo de "instante decisivo". Em consonância com Sebastião Salgado, creio que todos os instantes são determinantes. O que vale é encadear sua sucessão na esteira de uma narrativa possível. Pois bem, meu dilema era saber por onde começar. Afinal, que 'história' desejava eu relatar com imagens? Não consegui responder a este questionamento. Trouxe na câmera uma miscelânea desconexa carente de sinapses.

Afastei-me do "casco histórico" em direção aos bairros menos turísticos de Colônia. Atravessei multidões alvoroçadas de crianças e adolescentes que concluíam sua jornada de estudos nas escolas e liceus locais. Subi tímidas ladeiras de onde avistei o suave anoitecer da enseada. Caminhei por uma avenida na qual o som dos automóveis se mesclava com gritos de caturritas verdes e azuis, abafando as risadas do menininho de suéter claro que brincava com seu cachorro. Guardei a câmera acreditando ser possível integrar-me aquela paisagem de anônimos.

Quando já o dilúculo era incontestável e seus tons manchavam mornamente a cidade, retornei ao "bairro histórico" (que bairro não é histórico?). Sobre um mirante branco, vi o sol laranja submergir no Rio da Prata. A orla fervia mum burburinho poliglota matizado por ceceos ibéricos, chiada maciez lusófona e acentos italianados do castelhano portenho. Com suas objetivas apontadas para o rio, as câmeras clicavam enlouquecidamente. Apoiado no guardacorpo, fui solicitado por duas espanholas para fotografá-las: queriam um retrato adornado pelo pôr-do-sol. A primeira foto saiu razoável. Céu avermelhado, esfera solar semi-velada pela linha do horizonte escurecida e faces suavemente iluminadas pelo flash de preenchimento. "Sí, está buena", disseram. "Pero mira que hay alguien aquí", acrescentou uma delas sinalizando com o dedo o rosto de alguém desconhecido que, acidentalmente, havia sido captado na imagem. "¿Nos puedes sacar otra que no salga nadie?", perguntou uma das mocinhas. "¿Cómo no?", respondi procedendo aos ajustes necessários para excluir qualquer rebarba humana que fosse inconveniente ao propósito daquela fotografia.

Que propósito era esse? Talvez expressar uma ideia de exclusividade do momento. As duas e o sol, nada mais, ninguém mais. Nenhuma mácula, nenhum borrão humano que delatasse o contexto absolutamente turístico onde se produziu a imagem. Aquela foto, contudo, na sua forma, no seu enquadramento, nas suas margens, era fruto do acomodamento imposto pelo encontro entre um ideal de pureza do momento, disfrute individual do que é belo e as contingências da aglomeração de pessoas. Eu mesmo, ao fim e ao cabo, estava afetado por esse ideal. A angústia inicial de não poder fotografar provinha, justamente, dessa necessidade de encontrar algo autêntico num espaço minado de cartões postais. Encontrava-me incômodo diante de uma situação que me habilitava apenas a narrar percursos turístico. Aquela era, contudo, minha posição, o lugar a partir do qual poderia ousar qualquer intento narrativo, imagético ou não. Esquivar esta realidade das minhas fotos soava a fraude, a inconsistência, a pó.

Quando percorri os bairros mais afastados do circuito turístico, só consegui acumular fragmentos dispersos de algum roteiro que não estava apto a interpretar. Sequer sabia como posicionar-me diante dos elementos que se me apresentavam. Tentava fugir da rota na qual estava compelido a permanecer pelas próprias características de minha presença em Colônia: deveria regressar religiosamente ao hotel, tinha na bagagem as passagens de volta, poucos nomes de rua me soavam conhecidos, pouquíssimas fachadas, varandas ou pátios sugeriam memórias, recordações. Quase nada tinha a dizer ou perguntar (fora do bordão turístico) para aqueles que cruzavam por mim nas esquinas e praças.

Tanto meu inibimento ao produzir imagens quanto a necessidade de exclusividade das meninas espanholas, aparentam ser reflexos de um mesmo temor: retornar para casa trazendo apenas cinzas entre os dedos. Nada de autêntico, nada de concreto, nada espetacular ou inédito. Lévi-Strauss, melancolicamente, fez esta constatação ao abalançar o saldo de suas viagens. Por mais que tenhamos ressalvas consoladoras a fazer diante de conclusões tão pessimistas, é-nos difícil evadir dessa sensação amarga profundamente relacionada com um ideal de viagem que atravessa dezenas de gerações no ocidente.

Relatos de viagem densos e profícuos são possíveis, claro. Contudo, sua produção estará subordinada ao reconhecimento de um lugar específico de inserção que transcende em muito o mero desejo do sujeito. Abdico do desprendimento ostentado pelo peregrino, nego o egocentrismo do explorador e o altruísmo do missionário. O ativismo circunstacial do etnógrafo fica reservado para os momentos em que a disponibilidade de tempo me possibilite cair em redes, acessar e produzir, coletivamente, memórias. Pisarei as ruas do mundo como turista sempre e quando a passagem de volta for imprescindível na bagagem. Turista ousado, é certo. Turista frustrado de antemão, como deve ser. No fim das viagens falarei de mim, de mim entre os outros.

Foto: Alex Moraes - Colonia - jul/10

domingo, 16 de maio de 2010

O mito de Dahrmo Madu

-relato fantástico-


Os iroami, nativos da ilha de Pahdrei Majdou, situada na micronésia, acreditam que um amor apenas é efetivo quando permanece rotundamente não correspondido. Sendo assim, duas pessoas podem chegar a amar-se, mas jamais ao mesmo tempo. Na maioria dos casamentos, os cônjuges ou não se amam (o que é absolutamente aceitável), ou se revezam ao longo dos anos no exercício do amar. O vocábulo "dòrd-cohtveló", que designa o sentimento de amar, também se usa para definir a frustração.

É comum, em Pahdrei Majdou, que os filhos afirmem não amar suas mães. Soaria de péssimo gosto sugerir que se nutre amor pela progenitora. Às mães, se lhes reserva o direito e a obrigação de amar sem que seus rebentos ponham em xeque a pureza do que elas sentem. Só se está autorizado a manifestar amor pela mãe depois da morte desta. Anula-se, assim, a possibilidade de concomitância, ficando preservados, em essência, os afetos que regem a unidade e a solidariedade familiar.

Os nativos evocam um mito - o de Dahrmo Madu - para embasar sua crença na impossibilidade do amor recíproco. Lançando mão de relatos coletados por vários investigadores que aportaram na região, é possível recompor o essencial da história.

O demiurgo Dahrmo Madu sonhou com o homem e com a mulher. No sonho de Dahrmo Madu, o homem e a mulher sonharam que deus os estava sonhando. Foi composta, desta forma, a simbiose cósmica que sustenta o mundo e coloca os seres humanos sintonizados com o divino. Em seu sonho, a divindade profetizou: "juntos, o homem e a mulher se amarão, viverão e procriarão". Cumprindo com o primeiro ditame do criador, o homem e a mulher trataram, assiduamente, de construir o amor. Passaram incontáveis crepúsculos e amanheceres manifestando mutuamente e de todas as formas possíveis, a intensidade do que nutriam um com relação ao outro. Eram tão fortes os quereres de ambos, que lhes foi impossível tomar consciência do próprio amor. Não estavam jamais satisfeitos, sentiam-se em dívida permanente com o criador. Não sabiam até que ponto as ordens divinas estavam sendo cumpridas. Preocupado com esta situação, assombrado com a possibilidade de que jamais a humanidade alcançasse certeza de estar amando, o demiurgo sonhou com outra mulher que, por sua vez, sonhou que deus a estava sonhando. Esta mulher recebeu as seguintes ordens: "não deverás corresponder ao amor de outro homem ainda que vivas e procries com ele". Quando aqueles três seres humanos recém criados se encontraram, o homem, cumprindo com os desígnios da divindade, buscou amar a segunda mulher. Não foi nem mininamente correspondido. Percebeu a dimensão do seu sentimento ao defrontá-lo com a inércia completa da nova companheira: estava enamorado. Quanto à primeira mulher, percebendo que o homem havia conseguido amar - amar a outra -, sentiu uma dor violenta, conscientizou-se, imediatamente, do amor. Era já tarde. O primeiro homem casou-se com a segunda mulher e tiveram um filho. Como a criança recém nascida, sonhada pelos seres humanos, não estava incumbida a priori de exercer qualquer sentimento com relação a ninguém, a segunda mulher achou válido amá-la, mas recomendou-lhe que apenas amasse uma pessoa que não pudesse corresponder aos seus afetos. O menino, quando púbere, apaixonou-se pela primeira mulher - que ainda amava o primeiro homem - e com ela se casou sem nunca ter seus quereres retribuídos. A ingratidão foi o preço a ser pago pela humanidade ao receber o dom de amar conscientemente.

Trabalhos recentes sugerem que alguns aspectos da cosmologia de Pahdrei Majdou podem ser identificados por todo o Pacífico e que, em realidade, nesta pequena ilha da micronésia, se verifica uma exacerbação de noções do amor presentes em diversas regiões da Oceania. Estudos mais arrojados e, por isso mesmo, faltos de qualquer credibilidade acadêmica, chegam a propor que os intensos circuitos de trocas que atravessam o Pacífico há milênios tornam difícil determinar a abrangência desta "filosofia" do amor classificada como 'iroami'. Se aceitássemos a falácia dos trabalhos ditos de "vanguarda", acabaríamos por concluir que o ideal de amor "iroami" está universalizado e sofre pequenas oscilações cujo caráter é meramente situacional. Um absurdo. De ser assim, deveríamos interpretar clássicos do romantismo ocidental como "Romeu e Julieta" enquanto ecos de discursos dissidentes e quase blasfêmicos - ainda que altamente persuasivos. Discursos periféricos à uma suposta arte concreta e generalizada do amor entre os homens.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Não era a mesma quando voltou

Depois de chafurdar em toda a lama porca que se acumula nas duas margens do Rio da Prata, depois de perder os botões da calça, aniquilar o corpo por dentro e por fora a ponto de beirar a decrepitude, achou por bem retornar.

De volta, viu rostos faceiros, sentiu a língua enrolar - e não só pelo álcool -, as palavras fugirem, constatou cicatrizes perenes no idioma e nos pulmões. Gostou.

Não podia abster-se, contudo, de uma purificação. A ideia de purificação agradava-o. Pudera! Depois de tanta porrificação. Porrificação sem culpa, é certo. Porrificação que, por outro lado, já não cabia no seu admirável mundo velho.

Contou com a complacência dos discursos, viveu o inominável na dor calada que umas ou outras seguraram na garganta. Aceitou, por certo tempo, o sacrifício de não poder re-traduzir-se nos termos dos lugares e pessoas que o tinham esperado. Num ideal de ascetismo, decidiu empunhar a chibata da esperança arruinada e torpe, marcando com ela sorrisos azedos em seu rosto durante meses. Todos deveriam sofrer nessa longa peregrinagem expiatória. Purificar-se não era retornar ao estado anterior, mas sim frustrar-se definitivamente com o que lhe restava depois de tanto tesão, tanto andar e tanta merda disso decorrente.

É verdade que não impôs sofrimento nenhum a ninguém. Pelo menos não deliberadamente. Aceitou a contingência dos sofreres alheios e dela retirou o essencial para a construção de uma nova moralidade, sóbria, amnésica, comprometida em reencontrar os equívocos do passado exatamente na esquina seguinte de futuro. Aceitou definir-se através da dor e da perplexidade dos outros. Aceitou ser o ponto nevrálgico da vida de uma mulher. Sabia que, cedo ou tarde, viriam a ruina e a solidão, varrendo todas as extravagâncias e utopias, deixando de pé apenas o estritamente possível, deixando-o cara a cara com seu novo estado de espírito.

Vendo sofrer, tentou chorar mas não pôde. Seu pranto não teria razão. Compadecer-se de alguém é não olhar para si mesmo.

A purificação ainda não havia sido alcançada. Era preciso sofrer as consequencias de algo por hora impreciso. As linhas básicas e gerais do que ele seria daqui para frente eram fugidias. A realidade concreta teimava em manter-se impávida sob um céu tormentoso.

Numa manhã qualquer, acordou acompanhado - como sempre. Empreendeu a banal e quase desnecessária despedida matinal - esta que nos livra de culpa se, eventualmente, ao longo do dia, um sinistro qualquer aniquila nosso concubino/a: "pelo menos eu pude me despedir dele".

Ficou em casa e alguém se foi. De regresso ao cômodo, viu roupeiro desfalcado.

Algo estava errado. Seguramente, enquanto ele dormia, ela obrava uma partida triunfal e muda. Esvaziava roupeiros, bancadas; coletava brinquinhos e pulseiras, roupa interior: insignificâncias que, quando ausentes, deixavam crateras na paisagem doméstica. Entre tantos vazios - de fato o quarto era uma paisagem penumbrenta e pontilhada de pequenos vácuos que ainda não significavam nada - , resplandecia uma folha pautada, completamente deslocada, absolutamente autoritária, indisposta ao diálogo. Como podia não ter reparado antes naquele pedaço de papel manchado por letras de menininha? Como podia não ter notado qualquer mudança de expressão no rosto da mulher pequenina que há poucos minutos cruzou o portão do pátio dianteiro.

"Fui embora, não volto mais". Isso realmente impressionou-o. Sentiu-se absolutamente só. Finalmente, o último ser que lhe restava conseguiu frustrá-lo, suicidou-se da sua vida.

Mas um dia ela retornou. Uma ou duas semanas após a despedida crucial habilmente disfarçada de despedida banal. Então ele provou o desespero. A frase do papel pautado cobrava sentido cabal diante da aparente contradição dos fatos. A menininha, a mulherzinha, com efeito, não voltara. Tudo havia mudado: seus olhos, sua expressão, a forma como o lábio superior repousa sobre o inferior durante os intervalos da fala. Definitivamente, estava de regresso e não era a mesma. Jamais seria.

Puro e despojado, punido com a desaparição repentina do amor de outrem, saqueado de todo substrato humano que pudesse respaldar ódio, ternura ou sadismo, sentia-se pronto, novamente, para devotar-se a outras mulheres erradas.