sábado, 5 de fevereiro de 2011
Instruções para cevar o mate
domingo, 30 de janeiro de 2011
RiO PoA

No Rio de Janeiro, existe uma espécie de “glamurismo” talvez associado à impactante presença dos estúdios da Rede Globo na cidade. Muitos jovenzinhos cariocas mais ou menos descolados querem ser artistas ou, pelo menos, aparentar alguma proximidade com o meio artístico. Criados em apartamentos no Leblon, na Lagoa ou em “Copa”, aprenderam, desde cedo, a escutar Chico Buarque, ler o básico dos autores russos, arranhar francês e levar esse papo de desigualdade com leveza, na brincadeira. Aos vinte e poucos anos, alguns fazem teatro, outros jornalismo, talvez história, letras. Estetizados ao extremo, exprimem com gestos afetados uma sofisticação intelectual e um desprendimento social que não resistem de pé mais além dos figurinos. Falando de figurino, lembro-me de uma situação, no Baixo Gávea, que ilustra bem a atmosfera cênica que inebria a juventude carioca. Ao me abordar, um vendedor de cerveja quis saber de onde eu era. Respondi que vinha de Porto Alegre. Ele disse que morava no Rio, era nordestino, fazia teatro, tinha figurado em duas novelas globais. Comentou, também, que ao viajar para seu estado de origem, recebia tratamento diferenciado quando diziar ser do Rio de Janeiro. Esse sujeito, que vou chamar de Pedro, puxou um papo que tinha toda a aparência de floreio introdutório a duas informações cruciais: 1) ter participado de novela; 2) ser, a pesar dos pesares, um artista. No Baixo Gávea, Pedro se traveste de vendedor e empunha seu isopor alegórico para oferecer cerveja aos playboys pedantes que, bem no fundo, são “iguais” a ele: gente da TV, gente do teatro. As diferenças entre as pessoas parecem reduzir-se a questões de figurino. Existe um muito bem consolidado “modelo” de jovem admirável cujo fulgor seduz a dominantes e dominados. Os primeiros se divertem, os segundos se frustram. Nessa encenação juvenil, o drama é sempre o mesmo e a função de interpretá-lo cabe a um elenco quase estamental. Os papeis não mudam. Mas sem problemas, pega leve, afinal, é tudo brincadeira mesmo.
Em Porto Alegre, bom mesmo é ser subversivo, latinoamericanista, violeiro, gay, bi, rocker, mod, folk ou tudo isso junto . É chegar na mesa do boteco e jogar ali em cima, como cartas de truco, meia dúzia de “experiências de vida” que valem mais que contra-flor. Os naipes poderosos são, em ordem crescente: “viagem-a-buenos-aires”, “viagem-a-machu-picchu”, “participação-em-suruba”. Em ambientes revolucionários, as super cartadas variam, podendo ser: “ter-apanhado-da-polìcia”, “ter-comido-a-deputada-de-esquerda”, “ter-pixado-o-muro”. Parece que a juventude portoalegrina abastada (me refiro, prioritariamente, àquela que se criou na Zona Sul, no Bom Fim e, em menor medida, nos bairros emergentes da Zona Norte) vive a constante emulação da permissividade, da transgressão. Trata-se de uma retórica progressista tão avançada que, às vezes, soa reacionária, rotuladora, sexista, performática, desarraigada da ação transformadora. Porto Alegre também concentra bolsões de intelectuais críticos, principalmente na Av. Independência e em certos redutos da Cidade Baixa. O traço definidor dessa intelectualidade é seu anti-intelectualismo quase maoísta. Trata-se de um tipo de “intelectual orgânico” que Gramsci detestaria. Valorizam a longa exposição das suas façanhas e desprezam qualquer ânimo analítico que não tenha por base a evocação de percepções individuais pinçadas em experiências folk-etno-cool (créditos parciais desta expressão: João Quaresma). Os intelectuais mais ousados e vanguardistas enaltecem suas vivências “na vila” ou “no projeto pescar”, onde tiveram a oportunidade de conviver com negros e pobres pela primeira vez na vida e onde desenvolvem fervorosa atividade de moralização e iluminação dos subalternos. Os livre-pensadores portoalegrenses decantam um humanismo transcedental e burguês, leve e sincero, absoluto, individualista. Outros grupos, menos massistas e mais idealistas não acreditam que breves e lúdicos passeios pelo chão batido dos arrabaldes conduza a qualquer abertura mental ou revisão conceitual criativa. Recorrem, então, à ayahuasca (o “Daime”). Geralmente a narrativa que oferecem da sua intoxicação (ou “enteogênese”, no léxico local) vem acompanhada de um sorriso blaze ornamentado com gestos braçais lentos e arredondados partindo do centro do peito.
domingo, 16 de janeiro de 2011
La Abuela Grillo
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
“Caso Battisti”: Rede Globo e ultra-direita italiana protestam em uníssono
Um fato recente nos ajuda a economizar longos resgates históricos e sistematizações teóricas para demonstrar o compromisso da mega imprensa com ideais antidemocráticos. No último dia do seu mandato, o ex-presidente Lula vetou a extradição de Cesare Battisti para a Itália. Ótimos artigos publicados no circuito alternativo detalham os aspectos históricos e jurídicos que rodeiam o “caso Battisti”. Não cabem dúvidas de que a decisão tomada por Lula é, pelo menos, aceitável e encontra suas justificativas no amplo manancial do direito internacional contemporâneo (sugiro a leitura do relatório elaborado pelo ex-ministro da justiça Tarso Genro ao conceder refúgio político a Battisti em 15 de janeiro de 2009: http://www.tarsogenro.com.br/artigos/fullnews.php?id=90). Quero centrar minha atenção no tipo de cobertura que a televisão aberta destinou aos últimos desdobramentos do "caso Battisti".
No dia 4 de janeiro de 2011, o Jornal Nacional da Rede Globo apresentou uma reportagem relativamente extensa onde se noticiava a reação de alguns grupos políticos italianos frente à opção do governo brasileiro por não extraditar o ex-ativista Cesare Battisti. Como o editorial da Globo desconhece os pronomes indefinidos, a expressão “alguns grupos políticos” foi alterada para “italianos” em uma frase do tipo: “italianos protestaram na frente da embaixada brasileira”. Posteriormente, a correspondente internacional da Rede Globo informou, diretamente de Roma, que partidos de direita e de esquerda teriam manifestado sua oposição a não-extradição do “ex-terrorista” Cesare Battisti. Se discutíssemos o tipo de valoração moral embutida no termo “ex-terrorista”, facilmente veríamos que está relacionado com a retórica da direita italiana (e brasileira, é claro). Seria, contudo, chover no molhado fazer a afirmação de que todo e qualquer termo que utilizamos em nosso cotidiano atende a interesses determinados. Não existe neutralidade nas palavras, até porque elas só fazem sentido em conjunturas sociais específicas das quais a ação política nunca está alheia. Somos animais políticos, afinal. Desejo iluminar, aqui, outro aspecto da reportagem, um pouco menos óbvio. Destrinchá-lo exige certo esforço no sentido de buscar dados alternativos que complexifiquem a notícia dos protestos na Itália oferecida pelo Jornal Nacional.
Ao dizer que grupos políticos de “esquerda e de direita” participaram das manifestações na embaixada brasileira, a correspondente européia da Rede Globo deu a entender que existe unanimidade dos italianos em opor-se à decisão do governo brasileiro. Não vem ao caso saber se ela, pessoalmente, quis dizer isso. O fato é que disse. Tampouco importa se estava mal informada sobre a composição do espectro político italiano. O fato é que se contentou com as informações que recebeu das suas fontes sem opor-lhes nenhuma crítica. A grande imprensa é assim, pensa rápido e reproduz mais rápido ainda. Ela se alimenta do senso comum, que é objetivo e transparente, “ingênuo” e espontâneo. Battisti “é” um terrorista, portanto, ninguém em sã consciência poderia defendê-lo. A lógica do raciocínio é tão simples quanto perversa.
Recorri a fontes italianas para conhecer quais grupos “de esquerda e de direita” protagonizaram os protestos em Roma, Milão e Turim. Não foi difícil encontrar falhas na reportagem da Globo. O diário La Reppublica (segundo em tiragem, pertencente ao grupo Espresso do financista Carlo de Benedetti) enumera sete coletivos políticos que se manifestaram publicamente a favor da extradição de Battisti: PDL (Povo da Liberdade), UDC (União dos Democratas Cristãos e de Centro), Movimento pela Itália, PD (Partido Democrático), IDV (Itália dos Valores), La Destra (A Direita) e Liga Norte. Os únicos partidos que não se auto-declaram de direita nesta lista são UDC, PD, IDV. O primeiro deles se considera de centro e os dois últimos estão na centro-esquerda, o que se poderia chamar de social democracia européia. Todos os demais partidos integram setores ultra-conservadores e mesmo fascistas da sociedade italiana. PDL é a agremiação de Silvio Berlusconi; Movimento pela Itália lidera, atualmente, uma campanha anti-musulmana e xenófoba; La Destra rompeu com o partido de Berlusconi por considerá-lo muito “moderado” e Liga do Norte representa um nacionalismo separatista e chauvinista que prega a expulsão de imigrantes provindos de países não-europeus. Diante destas informações já seria possível afirmar que a reportagem do Jornal Nacional é, no mínimo, reducionista. Entretanto, a má-fé não pára por aí. Os jornalistas da Rede Globo se esqueceram de noticiar outro acontecimento que teve visibilidade inclusive na imprensa conservadora italiana: foram fixados em diversos locais do centro de Roma chamativos cartazes (na foto) a favor da não extradição de Battisti. A frase principal declara: “Battisti livre”. Outro trecho diz o seguinte: “A perseguição terminou. A Inquisição cessou graças à determinação e coragem do presidente Lula. Os guardiões do capital, pelo menos desta vez, foram embora com as mãos vazias”.
Todas estas informações contribuem para iluminar o lado obscuro da cobertura jornalística hegemônica em torno do “caso Battisti’. Na reportagem da qual me ocupei aqui, a manipulação operou em dois movimentos. Primeiro, a opinião manifestada por grupos de ultra-direita e por pequenos e acanhados partidos de centro italianos foi pinçada pelos repórteres globais. Depois, aquela mesma opinião converteu-se, magicamente, em síntese da repercussão internacional da não extradição de Battisti. Ao conhecermos alguns dados obliterados pela redação da Rede Globo, podemos localizar com mais precisão que tipo de ideologia recebe destaque, diariamente, no noticiário nacional da família Marinho. Causa assombro e preocupação que uma rede de televisão monopolista se comporte como porta-voz do fascismo em um país cuja carta constitucional pugna pelo aprofundamento e pluralização dos direitos sociais que positivam e dignificam a diversidade de idéias, demandas e pontos de vista.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Os meios e seus especialistas
Não deixo de surpreender-me com a magnitude do cinismo midiático no que tange a retórica da pluralidade. Qualquer observador atento pôde constatar, durante a cobertura das eleições nacionais, quais são os verdadeiros lobistas da dita opinião pública. Nos diversos canais da TV aberta, vimos se revesarem as cartas marcadas de sempre que, ostentando títulos acadêmicos ou um suposto reconhecimento profissional, deram contudentes aulas de invencionismo caracterizadas, na maioria dos casos, por um tom retórico altamente prescritivo. Nada pode estar mais distante da reflexão científica.
Sujeitos que, em seus respectivos campos de saber, não gozam do mais mínimo reconhecimento se convertem, por mágica, nos respeitáveis arautos do bom senso. Investidos de uma legitimidade precária, os "especialistas" transitam com desenvoltura pelos estúdios da grande mídia esgrimindo constatações que em muito extrapolam as reais aptidões analíticas que seus títulos acadêmicos atestam. Esta é a "pluralidade" que a imprensa brasileira admira? É esta arte de fazer o mesmo discurso ser repetido por meia dúzia de bocas diferentes que eles classificam como "exercício crítico da imprensa livre"?
Preocupa a forma como setores hegemônicos da imprensa brasileira introduzem na esfera pública certas práticas informativas que minam as próprias ambições da democracia. Mais assombroso, contudo, é que não lhes seja feita a adequada oposição. Ecoam, como se fossem unívocas, verdades fabricadas em obscuras redações. Naturalizam-se práticas de debate altamente perniciosas para um sistema político como o brasileiro, cuja carta constitucional pugna pelo aprofundamento e pluralização dos direitos sociais que positivam e dignificam a diversidade. Produz-se uma espécie de esquizofrenia que leva os jornalistas a acreditarem piamente nos dados que, ainda ontem, eram elocubrados por eles mesmos no contexto de articulações eleitoreiras ou mesmo golpistas (lembremos de 2006).
Como é característico do campo jornalístico, o que foi dito num grande jornal se reproduz nos pequenos meios; o especialista mistificado pela cadeia de TV x deve, necessariamente, ser convidado a opinar na emissora y; ninguém pode ficar atrás de ninguém na árdua tarefa de repetir as mesmas coisas em uníssono. Neste circuito, que tem seus acessos e contornos definidos pelo ranço conservador dos ícones do bom jornalismo, flui uma articulação de conjunto que passa a ser anônima (posto que é consensual), mas não perde seu caráter programático, estratégico. E quando falo de estratégia, me refiro a um repertório mais ou menos regular de práticas discursivas que servem para atribuir valores morais diferenciados a sujeitos diversos; que servem para produzir um vocabulário de interpelação que é, acima de tudo, um vocabulário político, ou seja, eficiente para a luta política. Desaba, assim, diante do olhar atento e do ouvido aguçado, todo o suposto ascetismo que nossos "formadores de opinião" ritualizam em seus falsos fóruns de debate plural. Fóruns nos quais a participação de qualquer um está condicionada pelo consenso (ou o termo correto seria adesão?) prévio.
Os meios fazem precipitar sobre a sociedade brasileira certa cultura de debate que valoriza o exercício de manutenção e reprodução do senso comum, este eficaz alimento das consciências que desejam expurgar de si quaisquer ímpetos "ideológicos" ou "autoritários". No fim da história, cá nos encontramos nós, constrangidos a pensar o futuro e a própria ação no presente pelo viés das forças sociais que derrotamos ainda ontem, pelo menos no plano eleitoral.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Manifesto dos intelectuais e artistas pró Dilma Rousseff
partidos, nos unimos para apoiar Dilma Rousseff.
Fazemos isso por sentir que é nosso dever somar forças para garantir os avanços
alcançados. Para prosseguirmos juntos na construção de um país capaz de um
crescimento econômico que signifique desenvolvimento para todos, que preserve os
bens e serviços da natureza, um país socialmente justo, que continue acelerando
a inclusão social, que consolide, soberano, sua nova posição no cenário
internacional. Um país que priorize a educação, a cultura, a sustentabilidade, a
erradicação da miséria e da desigualdade social. Um país que preserve sua
dignidade reconquistada.
Entendemos que essas são condições essenciais para que seja possível atender às
necessidades básicas do povo, fortalecer a cidadania, assegurar a cada
brasileiro seus direitos fundamentais.
Entendemos que é essencial seguir reconstruindo o Estado, para garantir o
desenvolvimento sustentável, com justiça social e projeção de uma política
externa soberana e solidária.
Entendemos que, muito mais que uma candidatura, o que está em jogo é o que foi
conquistado.
Por tudo isso, declaramos em conjunto o apoio a Dilma Rousseff. É hora de unir
nossas forças no segundo turno para garantir as conquistas e continuarmos na
direção de uma sociedade justa, solidária e soberana.
Leonardo Boff - Chico Buarque - Fernando Moraes - Emir Sader - Eric Nepomuceno-
Regina Machado - Marcelo Laffitte
Para aderir, escrever a emirsader@uol.com.br e ericnepomuceno@uol.com.br
terça-feira, 3 de agosto de 2010
No fim das viagens
Andei por Colônia do Sacramento na semana passada. Foi a terceira vez em que tive oportunidade de percorrer uma das mais antigas cidades uruguaias. Logicamente dediquei horas da noite e da tarde para passear entre os casarios setecentistas da época portuguesa, dividindo o espaço das estreitas ruas com volumosa quantidade de turistas, a maioria deles procedentes do Brasil e da Argentina.
Câmera em mãos, me vi arrebatado por uma profunda falta de inspiração, não tinha vontade alguma de fazer o registro fotográfico daqueles locais. Nenhuma perspectiva parecia-me adequada, ainda que os golpes de luz crepuscular fossem absolutamente favoráveis. Era uma sensação angustiosa a de não conseguir fotografar. Não acredito nesse papo de "instante decisivo". Em consonância com Sebastião Salgado, creio que todos os instantes são determinantes. O que vale é encadear sua sucessão na esteira de uma narrativa possível. Pois bem, meu dilema era saber por onde começar. Afinal, que 'história' desejava eu relatar com imagens? Não consegui responder a este questionamento. Trouxe na câmera uma miscelânea desconexa carente de sinapses.
Afastei-me do "casco histórico" em direção aos bairros menos turísticos de Colônia. Atravessei multidões alvoroçadas de crianças e adolescentes que concluíam sua jornada de estudos nas escolas e liceus locais. Subi tímidas ladeiras de onde avistei o suave anoitecer da enseada. Caminhei por uma avenida na qual o som dos automóveis se mesclava com gritos de caturritas verdes e azuis, abafando as risadas do menininho de suéter claro que brincava com seu cachorro. Guardei a câmera acreditando ser possível integrar-me aquela paisagem de anônimos.
Quando já o dilúculo era incontestável e seus tons manchavam mornamente a cidade, retornei ao "bairro histórico" (que bairro não é histórico?). Sobre um mirante branco, vi o sol laranja submergir no Rio da Prata. A orla fervia mum burburinho poliglota matizado por ceceos ibéricos, chiada maciez lusófona e acentos italianados do castelhano portenho. Com suas objetivas apontadas para o rio, as câmeras clicavam enlouquecidamente. Apoiado no guardacorpo, fui solicitado por duas espanholas para fotografá-las: queriam um retrato adornado pelo pôr-do-sol. A primeira foto saiu razoável. Céu avermelhado, esfera solar semi-velada pela linha do horizonte escurecida e faces suavemente iluminadas pelo flash de preenchimento. "Sí, está buena", disseram. "Pero mira que hay alguien aquí", acrescentou uma delas sinalizando com o dedo o rosto de alguém desconhecido que, acidentalmente, havia sido captado na imagem. "¿Nos puedes sacar otra que no salga nadie?", perguntou uma das mocinhas. "¿Cómo no?", respondi procedendo aos ajustes necessários para excluir qualquer rebarba humana que fosse inconveniente ao propósito daquela fotografia.
Que propósito era esse? Talvez expressar uma ideia de exclusividade do momento. As duas e o sol, nada mais, ninguém mais. Nenhuma mácula, nenhum borrão humano que delatasse o contexto absolutamente turístico onde se produziu a imagem. Aquela foto, contudo, na sua forma, no seu enquadramento, nas suas margens, era fruto do acomodamento imposto pelo encontro entre um ideal de pureza do momento, disfrute individual do que é belo e as contingências da aglomeração de pessoas. Eu mesmo, ao fim e ao cabo, estava afetado por esse ideal. A angústia inicial de não poder fotografar provinha, justamente, dessa necessidade de encontrar algo autêntico num espaço minado de cartões postais. Encontrava-me incômodo diante de uma situação que me habilitava apenas a narrar percursos turístico. Aquela era, contudo, minha posição, o lugar a partir do qual poderia ousar qualquer intento narrativo, imagético ou não. Esquivar esta realidade das minhas fotos soava a fraude, a inconsistência, a pó.
Quando percorri os bairros mais afastados do circuito turístico, só consegui acumular fragmentos dispersos de algum roteiro que não estava apto a interpretar. Sequer sabia como posicionar-me diante dos elementos que se me apresentavam. Tentava fugir da rota na qual estava compelido a permanecer pelas próprias características de minha presença em Colônia: deveria regressar religiosamente ao hotel, tinha na bagagem as passagens de volta, poucos nomes de rua me soavam conhecidos, pouquíssimas fachadas, varandas ou pátios sugeriam memórias, recordações. Quase nada tinha a dizer ou perguntar (fora do bordão turístico) para aqueles que cruzavam por mim nas esquinas e praças.
Tanto meu inibimento ao produzir imagens quanto a necessidade de exclusividade das meninas espanholas, aparentam ser reflexos de um mesmo temor: retornar para casa trazendo apenas cinzas entre os dedos. Nada de autêntico, nada de concreto, nada espetacular ou inédito. Lévi-Strauss, melancolicamente, fez esta constatação ao abalançar o saldo de suas viagens. Por mais que tenhamos ressalvas consoladoras a fazer diante de conclusões tão pessimistas, é-nos difícil evadir dessa sensação amarga profundamente relacionada com um ideal de viagem que atravessa dezenas de gerações no ocidente.
Relatos de viagem densos e profícuos são possíveis, claro. Contudo, sua produção estará subordinada ao reconhecimento de um lugar específico de inserção que transcende em muito o mero desejo do sujeito. Abdico do desprendimento ostentado pelo peregrino, nego o egocentrismo do explorador e o altruísmo do missionário. O ativismo circunstacial do etnógrafo fica reservado para os momentos em que a disponibilidade de tempo me possibilite cair em redes, acessar e produzir, coletivamente, memórias. Pisarei as ruas do mundo como turista sempre e quando a passagem de volta for imprescindível na bagagem. Turista ousado, é certo. Turista frustrado de antemão, como deve ser. No fim das viagens falarei de mim, de mim entre os outros.
Foto: Alex Moraes - Colonia - jul/10