sábado, 10 de dezembro de 2011

Pradarias em verão

Quero de volta meu estar
Nesse mormaço estival de jasmins azedos
Nessa úmida lufada de folhas sob o
crepúsculo plúmbico.

Mas as pradarias do Sul em verão
perdem-se dos homens e das mulheres,
aniquilam a espiga, o gérmen de
trigo, a viscosidade vívida e
malemolente do prateado dorso
dos peixes.

As pradarias do Sul em verão
perdem-se de mim;
resto absorto, envolto pelo calor
total que calcina corpos
e inflama angústias.

Não me peçam


Deem-me tempo para a
calçada, para a solidão
fora do gueto, para o roçar
da sola de borracha na superfície
desgastada do granito úmido
onde repousam flores roxas.

Não me peçam que escreva
nada sem antes atravessar lentamente
a madrugada ébria e a
manhã de náuseas.

Não me peçam que escreva
nada sem antes revisar
a poesia de América e
os arquivos de causas perdidas.

Deem-me tempo para envolver-me
com gentes duvidosas, embalado
por rompantes meus, por
convites de estranhos (estranhos meus),
por solidariedades militantes.

Não me peçam que escreva
nada sem antes ter me desiludido
[com vocês,
ter desertado de vosso assombroso
coro de espíritos anêmicos

Não me peçam que escreva
nada sem antes ter escolhido
uma crítica situada,
contra vossa crítica que pretende
vir de lugar algum,
ou vir d'Antropologia:
o que dá no mesmo.

Não me atropelem com vosso
monolito de papel que massacra
a alegria, que abafa
o ruído absurdo sob vossa
voz precariamente livre, impávida.

O ruído se parece à palavra não.

Não à tristeza que institucionalizastes
para chorar vosso fracasso de classe,
Não à tristeza que institucionalizastes
para albergar vossa crítica oficiosa;
vossa crítica que não se sustenta
acolá do efêmero eco
da palavra enunciada a sós.

domingo, 14 de agosto de 2011

Medida de mis faltas

Acegua - Julho de 2011


Tengo un libro a medio leer
una poesía a medio engendrar
Tengo un vestido a medio caer
el esperma a medio explotar
Tengo una patria a medio hacer
una bandera a medio empuñar

Pero la pampa, medida de mis
faltas, la tengo absoluta con solo mirar.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Poesia torta para uma tarde de Junho, para a tarde de 18 de Junho de 2011

O grito que ouço não se faz classe
e o crepúsculo é modorra
é vanguarda de mais-um-dia.

O último cigarro se apaga
no vinho avinagrado da
penúltima taça na
última capital do sul;
na metrópole meridional
que é souvenir nostálgico
do ontem de massas
e do passado de caudilhos.

Condensando todas as horas,
o crepúsculo, gerúndio do dia,
enuncia a noite. A noite do
Ocidente imaginado e palpável.

En el Sol o granito amorna
sob chicletes e escarros.
Na Grécia a praça está limpa.
Espera as hordas e o gás da manhã.
Na Itália dizem que
o capital é pervertido (não perverso)
porque imoral: confrontam-se
O Bem e o Mal na Paz das sacristias.

Porto Alegre anoitece sua noite
de centros melancólicos e
arrabaldes mundanos demais.
Sua noite cúmplice de vozes
que não se mesclam.

Em Porto Alegre não há aliança possível.

Há intelectuais vigilantes.
Há intelectuais zelosos na
Noite-de-mais-um-dia.
Eles temem partidos, bandeiras
e populacho.
Temem a nação e a classe.
Esperam epifanias.

São a consciência
do citoyen, o pouquinho
que cada qual pode fazer.

São litania perdida
em algum lugar entre o
ser-precisamente-assim e
a fugaz alegoria.

E nesta mesma noite,
ou na manchete policial de amanhã,
em pleno coito, na alvorada violenta,
no presente que é eterna véspera
duma esperança concreta,
milhões fazem poesia.

Fazem o agora,
tornam o tempo verdadeiro,
teleologizam, encarnam o antes e,
alegres, imaginam o depois.

Folheiam páginas com
avidez. Não hão de convertê-las
em resenha, em necrológico.
Plasmarão a poesia torta
das alamedas e ruelas;
poesia densa e desengonçada que se
[sustenta
com colchetes, que se
formula no plural, com trapos,
com grêmios, com merda,
lama, com resquícios do tecido.

As cinzas flutuam em bloco,
adernam, fragmentam-se e submergem
lentamente.


A taça treme.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Quando um intelectual é livre, se nota


Alex Martins Moraes

Dizem que o Rio Grande do Sul é o estado das polarizações e dos extremismos. Os gaúchos se pensam com relação a antinomias intransponíveis. Colorados e gremistas, petistas e antipetistas (ou seria reacionários e progressistas?), macho e fresco. Alguns sugerem que a origem destes dualismos remonta um passado de guerras e divisões políticas: republicanos e legalistas, ximangos e maragatos, castilhistas e anti-castilhistas. Enunciar dramas sociais através de oposições definitivas e transcendentes nunca assombrou os rio-grandenses. Juremir Machado da Silva é das poucas pessoas que se arrisca a desestabilizar publicamente dualidades de longa data consolidadas no imaginário local. Nosso autodenominado escritor maldito faz questão de explicar aos leitores do Correio do Povo que a agudeza irônica dos seus textos rompe os limites arbitrários de nossas desgastadas oposições. É possível – nos ensina Juremir – assumir uma postura política consistente sem se definir com respeito aos rótulos previamente dados. Juremir Machado se diverte lendo os e-mails enviados pelos leitores. Conta que ao longo de sua carreira jornalística, os textos que escreveu já lhe renderam toda a sorte de adjetivações, algumas delas, mutuamente excludentes: comunista - antipetista, obtuso - esclarecido. As reações do público que acompanha suas crônicas diárias revelariam a perplexidade causada por um estilo singular de narrar a realidade. Juremir Machado da Silva está na vanguarda, alcançou a consciência pós-moderna, para usar uma das poucas categorias que o escritor maldito reivindica para si.

Assim, armado com uma potente ferramenta de análise da realidade, o misterioso colunista do Correio do Povo se lança nos mais candentes debates sociais do seu tempo. Atento a pauta dos grandes jornais do país, Juremir traz aos pampas aquelas discussões que realmente importam e sugere uma forma inovadora de interpretá-las. Não se deixa seduzir pelos fanatismos políticos, pelas lealdades cegas, pelo ranço das elites, pelo cinismo de certas ideologias. É o livre-pensador por excelência. Contudo, ocupar um lugar legítimo de fala requer que façamos concessões aos cânones da hegemonia. Juremir Machado, consciente destas restrições, ritualiza uma adesão aos regimes de hierarquização e validação do saber. Regularmente ele repassa as produções mais importantes de sua carreira, relembra a densidade do seu currículo Lattes, evoca constantes viagens à França e diálogos com intelectuais respeitados. Todos estes são movimentos estratégicos. Às vezes é imperativo demonstrar que percorremos o circuito que conduz à legitimidade para, ato seguido, desnaturalizar os termos em que estão colocados os jogos sociais e expor a arbitrariedade que lhes é subjacente.

Muito pouco fica de pé depois da ácida crítica machadiana. Não, machadiana não. Juremir rejeitaria este rótulo não apenas por sua falta de originalidade mas também porque reporta à figura de um escritor que se encontra nas antípodas da postura política do cronista maldito. Refiro-me a Machado de Assis, este negro traidor que Juremir Machado se esforça por condenar no tribunal da história. ¿Como um escritor prestigioso e negro (ou mulato, não sei como se autodeclarava) foi capaz de se manter calado diante da ignominia escravocrata? Talvez porque numa sociedade onde a condição social do negro estava delineada por sua subordinação naturalizada ao trabalho braçal, um sujeito como Machado de Assis, filho de pais livres (mãe lavadeira, pai pintor de paredes), não se percebesse como vinculado à raça subalterna. Se bem a subordinação do negro parece ser uma constante na história brasileira, não foram sempre os mesmos dispositivos de exclusão que desencadearam a segregação e o genocídio. Ser negro nem sempre significou a mesma coisa que significa hoje. O caso de Machado de Assis é, sem dúvidas, bom para pensar. Mas as colunas jornalísticas raramente são um lugar apropriado para este tipo de atividade do espírito. O espaço é curto, o público alvo, sumamente heterogêneo. Como fazer para, diante destas contingências, manter uma postura afrontadora, franco-atiradora e profundamente crítica? Difícil. Juremir, realista e consciente, abre mão da terceira exigência retendo as duas primeiras. São elas, ao fim e ao cabo, que definem um escritor maldito.

Juremir duvida dessas posturas teóricas que tendem a reduzir tudo a meros “jogos de poder” sob o pretexto de incorporarem potencial crítico. A crítica está morta. Esta talvez seja uma das mais importantes lições que Juremir Machado nos traz da sua experiência direta de docente na Pontifícia Universidade Católica. Lá, seus alunos aprendem que o “sociólogo marxista (!!!) francês” Pierre Bourdieu banaliza (?!) as regras sociais ao demonstrar sua natureza arbitrária. Tem de haver algo mais profundo detrás dos fenômenos que polarizam a sociedade. Deus, assim como a crítica, o marxismo e a modernidade, está morto. É necessário, então, recorrer a outras explicações. Juremir avança em sua busca da natureza das relações sociais. Ele se afasta das dicotomias estabelecidas, toma a distância correta para começar a disparar. Surgem, então, os postulados que arrebatam a cacofonia antinômica que engessa os debates sociais no Rio Grande do Sul. Neste momento, a originalidade e desprendimento do escritor maldito alcançam sua mais alta expressão. Juremir Machado da Silva realiza uma bricolagem onde se mesclam vernizes acadêmicos e categorias de valoração moral amplamente disseminadas no vernáculo reacionário. Desta mistura inusitada, brotam revelações afiadas. Machado de Assis, recortado do seu contexto social, se converte em traidor. À diacronia marxista e à sincronia estruturalista, Juremir Machado opõe a anacronia.

Diante da linguística demagógica representada pela Abralin, o quixotesco cronista do Correio do Povo igualmente se insurge. Não aceita o ponto de vista daqueles que entendem as disputas em torno das regras de uso de um idioma como “meras” dinâmicas caracterizadas pela reconversão de capital simbólico (conceito que Juremir confunde com o de “capital social”, seguramente de forma propositada, afinal o que importa mesmo para um escritor maldito é atirar em quem quer que seja, nem que para isto se faça necessário manipular o conteúdo do seu argumento – ler coluna do dia 25 /05/2011). Neste debate contra o “marxismo linguístico”, nosso abnegado cronista abre mão do seu afã por desestabilizar dualismos. Ele sequer arrisca postular uma opinião inovadora. Idioma é coisa séria e brincadeira tem limites. Estão em jogo, aqui, a manutenção ou recuo do poder expressivo da língua. Juremir incorpora a postura do intelectual sóbrio, que sabe colocar os pés no chão e lembrar algumas verdades básicas da vida em sociedade: a língua escrita é um dos lugares mais privilegiados para a realização da expressividade humana. Levando ao extremo esta afirmação, podemos pensar que a ignorância sistemática de certos aspectos da norma culta pode, progressivamente, nos levar a perder o poder de expressar a nossa subjetividade. Tudo se passa como se compartilhássemos as mesmas demandas expressivas com a diferença de que alguns sortudos conseguem manifestá-las de forma mais acabada e outros não. É necessário, portanto, sinalizar o certo e o errado se se quer evitar o obscurantismo disfarçado de relativismo. Juremir reconhece que cada época tem seus certos e errados e que estas noções mudam com o tempo e de acordo com as sociedades. Não deixam, contudo, de existir. Juremir as entende como algo quase concreto, palpável. Tão palpável quanto uma suposta universalidade das demandas expressivas da humanidade.


Na linguística de Juremir Machado, podemos determinar o poder expressivo de cada grupo social ou coletivo humano avaliando sua maior ou menor adequação a norma culta vigente de uso do idioma escrito. Ao colocar as coisas nestes termos, o cronista maldito se vê em insólita companhia. Perfilam-se ao seu lado expoentes do pensamento reacionário pampeano como Percival Puggina e Claudio Moreno. Este último, aliás, desenvolveu acuradíssima técnica para medir o progresso linguístico dos atores sociais. Certa feita, durante aula de português para alunos do pré-vestibular, Moreno enunciou um postulado cuja essência normativa tentarei preservar numa reprodução livre de sua fala: se vocês chegarem na frente de uma casa e encontrarem aviso do tipo “não estacione, garage”, das duas uma: ali reside ou um francês ou um ignorante. Este é o tipo de conclusão que a linguística de Juremir Machado valida. Existem certas oposições indiscutíveis, posto que fundamentais. Elas alicerçam uma ordem social que, deliberadamente, a crônica maldita juremirmachadiana não está interessada em desestabilizar. Compreensível. Juremir, diferentemente de Machado de Assis, se entrega a toda sorte de ousadia literária sem jamais trair a sua classe. Quando um intelectual é livre, se nota. Não é o caso de Juremir Machado.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Do que as elites riem?

A imprensa gaúcha deu grande visibilidade ao projeto de lei do deputado Raul Carrion (Partido Comunista do Brasil) que tem por finalidade regular o uso de estrangeirismos nos meios de difusão escrita da informação. Alguns jornalistas sugeriram que o debate sobre a utilização de palavras estrangeiras na publicidade, nos jornais e mesmo em documentos oficiais está desprovido de importância, visto que questões de grande monta aguardam, ainda, uma adequada discussão em nossos parlamentos. Argumentos semelhantes são levantados quando se trata de problematizar a regulamentação da atividade jornalística ou mesmo a recuperação de informações que levem a identificar os responsáveis por violações dos direitos humanos durante a ditadura militar. É embaraçoso constatar o esforço da mega-imprensa em determinar aquilo que deve ou não ser posto em pauta na esfera institucional.

Apesar da jocosidade maliciosa e desinformativa que caracterizou a cobertura dos grandes jornais ao projeto de lei do deputado comunista Raul Carrion, o fato é que a discussão está colocada. Aumentar o nível do debate pode ser saudável. Opiniões críticas sobre o assunto em questão alertam para a dificuldade de implementação da lei e sugerem que, no geral, ninguém tem dificuldades para compreender vocábulos estrangeiros já amplamente disseminados. Alguns acadêmicos lembraram que os idiomas não constituem totalidades imutáveis. O português, como língua viva, atualiza-se mediante empréstimos variados. Ocorre que a lei aprovada no RS não visa proibir o uso de palavras provindas de outras línguas. O deputado Carrion propõe que, quando vocábulos estrangeiros apareçam em qualquer texto de ampla difusão, sejam ou traduzidos ou explicados ao leitor. Isto, sem dúvidas, promoveria um uso reflexivo e, portanto, qualificado da escrita.

Quero chamar a atenção, agora, para outra dimensão que caracteriza o uso de estrangeirismos em diversos textos que nos interpelam cotidianamente. Refiro-me a dimensão da violência social implícita em qualquer ato comunicativo que, dirigindo-se a um público amplo, priva determinados indivíduos de uma compreensão mais integral do conteúdo vocabular do texto enunciado. Os processos de diferenciação, segregação e exclusão operam por meios variados. Entre eles, o idioma. Não é coincidência que, na maioria das colunas sociais, termos como “coiffeur”, “cool”, “in”, “out”, irrompam sistematicamente para descrever a sedutora vida social das nossas elites econômicas. Falar e não ser entendido pode ser muito rentável às vezes. Tão rentável quanto insinuar que todos entendem o manancial de palavras estrangeiras que pontilham peças publicitárias e matérias jornalísticas. Quem desconhece o sentido de determinado termo é automaticamente convertido em aberração. A naturalização dos estrangeirismos naturaliza, também, eventuais estratégias de distinção alentadas pelo manejo desse tipo de vocábulo.

Mais do que inflamar o debate entre ortodoxia e heterodoxia, o projeto de Raul Carrion nos convida a refletir sobre os usos do idioma no contexto de uma sociedade violentamente desigual. A chacota e o deboche deram, até agora, a tônica da controvérsia gerada pela Lei 156/2009. Este parece ser mais um sintoma do embaraço causado pela visibilidade que o uso de estrangeirismos recebeu no Legislativo gaúcho. Costumamos rir daquilo que nos constrange. Transformamos em piada aquelas ideias que, se expressadas de outra forma, seriam intragáveis. Que preconceitos e práticas segregacionistas se ocultam sob as gargalhadas generalizadas?

quinta-feira, 17 de março de 2011

A própria vida


Vento invasivo no sul da metrópole
brônquios dilatados
coração pulsante
dentes e língua verdosos

aspectos do impacto
do brometo de ipratrópio que
arrebenta o peito numa orgia
aeróbica: parâmetro hiper-real da respiração.

aspectos do impacto
do arbusto nativo que
invoca todos o matizes
da selva ao roçar papilas.

Fora isso, há epifenômenos,
uma angústia discretíssima: a própria
vida, dada a conhecer através
de um feixe de energia.