segunda-feira, 1 de março de 2010

A ETERNIDADE

A força invencível que impulsiona o mundo não são os amores felizes, mas sim os contrariados – bem disse Garcia Márquez em outras palavras do seu “Memórias de Minhas Putas Tristes”.

Eu, que sei pouco e que pari este filme duma observância ligeira, descobri que o tempo é o que poderia me ditar a história. Mas não o tempo do senso-comum, o tempo fortuito e do acaso, e sim o tempo-imagem, o tempo que se pode esculpir. Dos amores contrariados, dissolvidos, visualizei a fábula. Nasceu junto com a imagem de São-Felix-Cachoeira, a ponte e seus lampejos noturnos, o silêncio da madrugada, o apito do trem, a música, a eterna música fabricada no sonho, no inconsciente do Recôncavo Negro e Tropical.

A memória, objeto do meu estudo fílmico, aflora também neste filme. Os fluxos, as elipses, o ritmo pausado, as sobreposições, as imagens-poemas, tudo é janela para livre interpretação. Em A Eternidade os signos estão impressos, expostos, vivos. Matéria pra pensar, pra sentir. Ecos de reverberação da angústia, candeias da melancolia, tons da fome e do desespero, luz, luz do amor e da sorte.

Chora o clarinete, devaneia o coração. É ela, acesa na noite, ligeira na água, companheira no vício, generosa na falta, é ela, encontrada em Rimbaud, emancipada em Eliot, reiventada por nós, é ela. O instante, o longo, o vivo, o morto, o terreno, o espírito, tudo cabe nela. O preto, o branco, o amarelo, o colorido. A eternidade é colorida, e a razão para ser se nutre do branco, que representa a unidade do tempo, e que dissolvido tem em seu espectro a palheta do mundo, de cores e de sensações. É a partir desta breve reflexão que convido-os para ver e ouvir, fruir ao encontro de A Eternidade.

Confiram o trailer:


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Poema do futuro

Não é porque o
café se dissolve em marasmo
que deixo de contemplar,
gozar o dom da espera alucinada.

Espera alucinada de futuros
que nunca, nunca se desdobram,
pois futuros não estão
na paisagem, "são nada
à vida" - ousaria dizer,
outrora, ao lado do poeta baiano.

Meu poeta baiano das noites
de confraria, que, a propósito,
eram o sonho e, por isso mesmo,
a vida.

O futuro sequer é sonho.
Trata-se de delírio da razão,
xadrez do consciente, berço
do egoísmo, este adubo do indivíduo.

Adubo do indivíduo dúbio,
enclausurado no âmago do
minuto, debatendo-se entre
o tempo do mito e o porvir.

O porvir desejado, ambicionado,
é frustração, é negação
de qualquer corrente serena
que constrói derredores
desenvoltos e obscenos.

Quero o obsceno! Essa coisa
de desvendar ombros ao
rítimo oco da vida que late
sem saber-se vida; secar suor
n'aragem, escutar rumor de folharadas,
incorporar a viração que tudo
desnuda e conduz.

E porque quero, me frustro:
novamente o que virá é
o velho futuro, essa cadeia
que desencadeamos na arte
consciente do banal.

Resta-me o café cortado
e seu matizes lácteos,
resta-me definhar no seio
do instante. Saber-me triste.
Porque se há vida que pulsa
fora de mim,
é contingência.
O contingente é ficção.

Ficção que se burla do vivido,
do vívido; caçoa do artesão
que se faz duramente a cada momento;
nega o cerne da escolha,
a opulência vital de cada punheta,
de cada segundo amargo na espera,
de cada passo rumo ao que jamais foi,
de cada manifestação da náusea cafeinada.

Essa ficção é claustrofóbica,
pois da tristeza radicalmente
cosciente que gera,
não me permite destilar a
mais cabal das alegrias. Nega-me a vida.
Lança-me à sua periferia, chama-me de
espectro do porvir.
Esquece-se de que sequer há vida!
Existem apenas moribundos.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A médica do trabalho que iria atender minha mãe hoje estava de licença por conta de uma doença muito grave, voltaria ao consultório daqui quinze dias. Não sabemos mais o que fazer.

Amanhã minha mãe vai visitar líderes religiosos para procurar uma poção que tire o mal olhado dela...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Milena

As prosas fantásticas se insinuam, quase todas, de maneira semelhante. O autor dá início ao texto relatando que determinada história de aparência verossímil lhe foi contada por alguém, num momento ao mesmo tempo específico e difuso. Este breve relato começa exatamente assim, mas asseguro que em muito seu conteúdo dista da ficção.

O fato é que numa noite de profundo azul e distante firmamento das que caracterizam o mês de agosto no Atlântico Sul, tive a oportunidade de conhecer e escutar dona Isabel. Esta mulher habitava, desde os funerais do seu marido, um quartinho mofado localizado aos fundos do edifício que me serve como retiro invernal na costa riograndense. Encarregada de tomar conta do prédio em baixa temporada, transpunha raramente o perímetro do imóvel. Em muitas ocasiões, acometido pela sensação por vezes incômoda de estar absolutamente só no apartamento vazio, reconfortei-me lembrando que, lá embaixo, encontrava-se Dona Isabel, sua revistinha de palavras cruzadas, sua televisão mal sintonizada, sua caturrita engaiolada. Era como ter uma espécie de companhia ausente. Contudo, naquela derradeira noite de inverno, quando sequer me sentia sozinho, a franzina Isabel abandonou seu habitual ostracismo para bater em minha porta.

Atendi perplexo a inusitada visitante. Ela pediu desculpas primeiro pelo avançado da hora e segundo, por não recordar meu nome. Me chamo Henrique - disse - e quanto à hora, não há problema, durmo tarde. Isabel silenciou, olhou artificialmente para o chão. Não tive outra opção que perguntar se desejava entrar. Acomodei-a na sala e, enquanto preparava o café, inqueri se algo havia acontecido. Quando Milena me visita, não consigo pregar os olhos - respondeu. Ainda perplexo, com duas xícaras na mão, sentei-me em uma cadeira diante de Isabel e, franzindo a sobrancelha, disse: Milena? Compartilho com o leitor a longa e desconcertante resposta oferecida pela obscura senhora:

"o moço não parece ser daqueles que muito se prende ao que passa mais além da janela do apartamento. Desculpe a petulância, mas é o que me parece e, particularmente, não vejo mal nenhum nisso. Olhando as prateleiras da sua sala, todos os livros que mantem aqui, penso que se diverte entre as letras, como me divirto eu com as revistinhas de palavras cruzadas. Claro, tampouco saio muito do prédio, estou envelhecida, mas nunca me senti enclausurda. Ainda que este corpo não me permita qualquer incursão mais demorada pelo povoado, fico atenta ao céu, à natureza, ao vento que sopra e me traz ares sempre renovados, talvez provindos de outros vilarejos e cidades. Traz, também, o nevoeiro e Milena. Certamente o moço não reparou que quando a noite caiu completamente, trouxe consigo uma aragenzinha gélida e aquele nevoeiro de agosto. Maldito e previsível nevoeiro. Digo que não reparou porque a janela deste apartamento esteve fechada durante toda a tarde. Para responder sua pergunta, para deixar claro quem é Milena, preciso comentar um pouco sobre essa neblina pesada e escura que hoje cobriu a praia. Trata-se de um fenômeno raro no inverno. Costuma ocorrer com mais intensidade em pleno verão, mas não é a mesma coisa. O nevoeiro do inverno chega cedo e se dissipa rápido. O do verão vai se espraiando madrugada adentro e some aos poucos, suavemente, arrefecendo por completo sob a primeira luz da manhã. Conheço bem o clima do litoral porque, quando faleceu meu marido, preenchi os dias de luto com a exaustiva observação do tempo. Sentada num pátio qualquer, descobri cada uma das sutis mudanças atmosféricas que transformam dia em noite e ativam o gradiente das estações. Sei exatamente quando a brisa de inverno começa, ardilosamente, a flertar com a primavera num idílio inexorável que as últimas geadas não chegam a acobertar. Sou capaz que prever, inclusive, o último gelo matutino antes que este se acumule sobre o pasto. O mesmo ocorre com o nevoeiro que hoje apagou a orla, os postes, a estrada. Três ou quadro dias antes da sua vinda, posso percebê-lo pelas sutis reverberações que provoca no vento indiscreto. Fico sobressaltada porque sempre, junto com o nevoeiro, vem Milena. Antes eu não sabia escutá-la. Agora que suas palavras soam claras nos meus ouvidos e me restam parcos meses de vida, preciso compartilhar minha sórdida verdade. O faço por mim e o faço por Milena. Desculpe o egoísmo, mas não tenho outra opção, o ímpeto que me levou a procurá-lo nesta madrugada, dificilmente irrompa em outra oportunidade. Sou extremamente reservada, tenho plena consciência do quão raros são os momentos de abertura e franqueza que me permito. Ademais, Milena exige tudo isto. Vou direto ao ponto, vejo enfado no seu olhar. O nevoeiro se ergue a duas milhas da costa, traz consigo mormaço sulfuroso do oceano matizado pelo cheiro das algas. Mas este nevoeiro é também, acima de tudo, um sentimento, porque conduz incrustado em seu âmago toda a resignação e espanto das almas dos afogados. Quando percebi o real caráter da intempérie, compreendi por que ela é capaz de aninhar no mais profundo de nosso ser, de nosso íntimo. Desde então comecei a dar ouvidos aos pregões de Milena, que antes pairavam desapercebidos. Não se sinta lisonjado por ser caudatário da minha história. Outros já tiveram a oportunidade de conhecê-la, mas me rotularam como louca. O que o torna diferente dos demais é não pensar que me falta lucidez. Por saber o quanto me levaria a sério, hesitei bastante em procurá-lo. Agora, entretanto, dividimos um dom ou, talvez, uma condenação. Estou certa de que atentará para a próxima neblina e algo lhe fará lembrar este nosso encontro. Será no ano que vem, não mais habitarei a soturna peça do andar térreo. Não mais serei a invisível companhia calada cuja presença acalma, vez que outra, suas solidões noturnas. Entretanto, o moço terá, caso queira, os pregões de Milena, seu denso e sufocante alento no cerne daqueles instantes que, por serem sombrios, parecem os mais desoladores. Quiçá aprenda, então, a apreciar o valor de fazer-se presente para outrem, rompendo, assim, a falsa aura de impenetrabilidade que nossa própria solidão aparentemente ostenta. Por estarmos sós, não precisamos impor solidão aos demais. Isso ensinou Milena, com sua voz de morte que a cada ano deixou-me mais absorta. Atualmente, quando falo com outras pessoas, só consigo pensar nela, arremessando sobre os poucos que me rodeiam o fel das elocubrações alentadas pelo tenebroso nevoeiro.".

Depois de terminar seu monólogo, que repercutiu como litania triste e monocorde nas paredes da sala, dona Isabel levantou-se com ares de esgotamento. Supus que ela desejava ir embora. Abri a porta e dei boa noite. A senhora foi caminhando pelo corredor escuro e desceu, lentamente, as escadarias. Tive um súbito arrepio que enrijeceu minhas costas e se espalhou ao longo dos meus braços. Preparei mais café, liguei o som, fechei as persianas e tive a certeza de que minha tranqüila solidão havia sido usurpada vilmente. Nunca mais regressei ao apartamento no inverno, pois temia que alguém pudesse ameaçar minha auto-imposta desolação, convertendo-a em monstruosidade intransponível, indomável. Certamente esse alguém não seria dona Isabel, que veio a falecer de agudo câncer abdominal meses depois da inesperada visita noturna que me fez. Temo a companhia de Milena, temo a mais claustrofóbica das solidões.
Alex - Janeiro/10
Terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Eu poderia estar na Espanha, em Barcelona, mas um imprevisto mudou algumas coisas. Um desencontro desses que acontece aos milhões na nossa vida. "Um desencontro" é modéstia minha, que além dos desencontros muitos encontros aconteceram concomitantemente. Como a mulher que trabalha com minha mãe que encontrou o telefone da minha avó de piracicaba para dizer que minha mãe havia passado em um concurso interno da ceagesp, mas precisaria entregar um exame médico admissional até o dia 15 de janeiro (daqui a três dias) no departamento pessoal. Minha vó encontrou o telefone do irmão do meu pai e ligou para ele tentando encontrar a gente, mas quem nos encontrou foi uma tia do meu pai que mora no Vilar de Cunhas que recebeu uma ligação do tio Carlos que mora no Benfica dizendo que recebeu a visita da minha prima Jéssica que havia recebido uma ligação do Brasil do meu tio Miguel com a notícia. Comemoração! (depois de dez minutos) Silêncio... Como chegar a Vila Leopoldina em São Paulo até o dia 15 com um exame médico admissional? Pois é, hoje termina o segundo dia extra em Lisboa sem encontrar solução nenhuma, mas com alguns desencontros que merecem o registro.
Desencontros, eu digo, porque após alguns telefonemas minha mãe descobriu que poderia fazer o exame por aqui mesmo numa clínica que chama "unimed" (mas não é a mesma do Brasil) e enviá-lo através do fax até a departamento pessoal da ceagesp. Chegamos em Lisboa ontem de manhã e fomos até a tal clínica. Nós iríamos conhecer os arredores enquanto minha mãe iria conversar com o médico. Depois de uma hora fomos ao ponto de encontro e como minha mãe não estava lá resolvemos ir ao encontro dela na clínica, que ficava em um prédio de negócios, no quinto andar. Quando dissemos que queríamos ir na unimed o gentil homem da recepção nos respondeu: "Esse aí não existe mais. Pediram falência no começo de dezembro e têm até o final de janeiro para tirarem as coisas daqui." E fomos atrás de minha mãe que já nos procurava a um bom tempo pelos arredores da, agora antiga, clínica.
Mas não havia com o que temer, hoje meu tio Carlos disse que conhece um médico do trabalho aqui em Lisboa que poderia nos ajudar. Quando o tio Carlos ligou para ele descobriu que seu amigo e médico que nos daria a liberdade havia morrido semana passada. Não sei mais detalhes.
Os desencontros de hoje acabaram com um breve passeio pelo castelo de São Jorge com a esperança de que a consulta marcada para amanhã às seis com um outro médico aconteça e que até o dia 15 o exame médico admissional esteja na Vila Leopoldina em São Paulo e nós em algum lugar de Barcelona...

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Ritual do Mate

Caros,
pensei duas, três vezes, antes de fazer esta postagem. A proposta inicial do blog era veicular textos, poesias, inquietações nossas e escritas por nós. O texto que lhes apresento logo abaixo, foi escrito por outrem. Trata-se de uma reflexão sobre o ritual do chimarrão, feita pelo cronista argentino Juan Sasturain e traduzida por mim ao português. Justamente por ser uma tradução, acho que vale a pena compartilhá-la com vocês, já que as traduções incorporam muito da estética e da subjetividade de quem as realiza. Eis o grande drama de certos puristas, drama este que, pelo menos em algum momento já se abateu sobre a consciência de diversos aspirantes a etnólogo.
A tradução é algo que se propõe, que se oferece à apreciação dialógica mas que serve, na maioria das vezes, aos interesses e dramas do grupo em que se insere o próprio tradutor. Claro, há vezes, principalmente nos meandros do mercado editorial internacional, em que os interesses econômicos são recíprocos, existem do lado traduzido e do lado que traduz. Mais correto seria afirmar que qualquer tradução contempla, pelo menos, as aspirações do tradutor.
O texto a seguir (ou, melhor dizendo, minha decisão de publicá-lo) reflete uma busca por semelhanças que ando tentando perpetrar. Reflete um "olhar poético ao sul desnacionalizado", mas, nem por isso, despojado de inquietações nacionais. Quem sabe, o que desejo é arrefecer a brutal distância das pradarias estendendo pontes de identidade sobre o mar verde do pampa, esse bioma que isola e une.
Com relação a temática da crônica, temos um intento quase antropológico de Juan Sasturain em construir o mate enquanto metáfora de certas motivações que conduzem os homens a relacionarem-se entre si. Enfatiza-se, também, a figura do "cevador", muitas vezes apagada, colocada em segundo plano, mas que, na verdade, constitui-se como eixo central no ritual do mate desde seu início até os desdobramentos finais.
Bom, proponho, a seguir, minha tradução. Entre parênteses, há algumas N.A.s - ou seja, Notas do Alex - que podem ajudar na contextualização das imagens evocadas por Sasturain.
O Ritual do Mate (por Juan Sasturain)
É muito estranho o verbo cevar. Na fala cotidiana dos argentinos (NA: e dos uruguaios e dos riograndenses) se usa quase com exclusividade para aludir ao trecho intermediário do ato/ritual de matear: é chamada de "cevar" a operação que se interpõe entre preparar o chimarrão e tomá-lo. Cavar - a arte de cevar, referida e comentada poe Amaro Villanueva em memorável livro - é pontualmente o coração do ritual: largar água na erva, dar forma à infusão, fundá-la. Aí está a verdade, o ponto chave, o que realmente importa.

O chimarrão pode ser tomado por uma pessoa sozinha, em dupla ou, como se supõe que ocorreu nos primórdios, em grupo. Quando se toma chimarrão sozinho, freqüentemente é o próprio sujeito quem prepara, ceva e consome. Isso fazem, hoje, muitos homens e mulheres, de manhã antes de sair ou enquanto trabalham no computador. Entretanto, nem sempre foi assim: a tarefa de fazer/cevar o mate foi, durante muitas décadas, tarefa feminina, extensão "natural" do trabalho da mulher (tomasse ela ou não o chimarrão; fosse ela esposa ou empregada) na cozinha: "Me ceva uns mates aí, Catarina...", diz o valentão batalhador do terrível "Amasijo Habitual" (NA: letra de tango do célebre Carlos Púa: "cebame un par de mates, Catalina..."). E sem ir tão longe: vi meu pai tomar mate durante quarenta anos em casa e nunca foi ele quem preparou nem cevou.

É que, tacitamente ou em teoria, o cevador é aquele que sabe (ou deveria saber), o que conduz a cerimônia. Assim sendo, desde o início, o cevador de turno pode rechaçar a água por estar fria ou por estar fervida, corrigir a "montagem" do chimas, tirar erva ou colocar mais e, já no exercício de seu cargo, é ele quem, depois de descartar as primeiras porções frio-amornadas, dispõe a intensidade e o ângulo de incidência do jatinho d'água (provindo este de garrafa térmica ou chaleira) - rente à bomba, nunca diretamente sobre a verde superfície - e, enquanto vai molhando a erva por setores, oferece o primeiro e depois os sucessivos mates, até diagnosticar, em algum momento, seu definitivo esgotamento.

O saber e o critério do cevador são questões chave por uma simples razão: o mate não é, ele vai sendo. Assim, quando um recém chegado se incorpora na roda, pode perguntar como está o chimarrão. Ou seja, qual é o seu estado. Como quem pergunta pela saúde de um doente ou pelo aspecto do céu, ou pelas perspectivas de um dia no geral. Há certas respostas que, expostas aqui a título de exemplo, dão conta deste gradiente: recém feito; é novo; tomável/aceitável; tá dando ainda; meio passado; passado; frio; gelado; lavado; esquenta a água; faz outro novo lá.

Porque o mate, como o pão da padaria, tem uma duração, descritível em termos de parábola, cuja medição não se ajusta a nenhuma nomenclatura rígida do tipo "data de validade". O próprio mecanismo da sua geração, sempre atualizado, torna os mates sempre únicos e diferentes: não há, ao longo de uma série, do primeiro ao vigésimo - digamos -, dois iguais. Nunca tomamos o mesmo mate, diria Heráclito. As variáveis - água e erva, sobretudo - jamais são as mesmas. Nos primeiros trechos (mates) partimos de um máximo de temperatura e de um mínimo (grau zero) de umidade da erva. É aí que se dá a máxima - não necessariamente a melhor - concentração de sabor: erva homogênea que sobe em bloco, com espuminha. Depois, tem uma zona intermediária na qual os extremos arrefecem - enquanto a água amorna, a erva fica empapada - e o sabor, paulatinamente, retrocede em intensidade, junto com a espuma em fuga e a menor elasticidade e capacidade de resposta da erva, tendente, cada vez mais, a ficar grudada no fundo, deixar a água sozinha e com isolados náufragos na superfície: sintoma irreversível de esgotamento funcional. O mate, como tal, morreu.

Quanto dura esse processo? O mate é humano, sumamente humano. As vezes, os elementos constitutivos não são nobres - água duras ou excessivamente cloradas, ervas ordinárias, saturadas de pó e galhos - e tudo se deteriora precocemente, de saída no mais. Em outros casos, falhas de conceito na origem - temperatura da água, quantidade de erva - costumam ser fatais e fazem o chimas morrer jovem. Na quarta servida, o mate já está virado em água. Outras vezes, o cuidado e o pulso do cevador, a zelosa administração da água e o controle sobre os tomadores irresponsáveis - aquele que mexe a bomba - ou desatentos - o que toma devagar, deixa a água acumular e esfriar sem tomar - costumam garantir uma longa vida produtiva e satisfatória para o chimarrão.

Neste ponto, cabe voltar ao início. Cevar significa, em primeiro lugar, alimentar ou - para ser mais claro e específico, numa segunda acepção imediata - alimentar com uma intensão que transcende a necessidade ou o desejo do alimentado e responde mais a um designo do cevador. Assim, pode-se cevar alguém - como o peru, para comê-lo no Natal - jogando com sua inaptidão ou apetite excessivo. Também é possível autocevar-se: um tigre cevado é vítima da sua experiência; provou - caçou e gostou - a carne humana e se acostumou. É perigoso para si mesmo e para os demais. Assim, cevar é, por correlação - dou um passo mais, na mesma lógica de raciocínio -, pôr a isca (NA: No original, o autor faz um trocadilho com o verbo "cebar" e o substantivo "cebo", que significa isca no castelhano utilizado na região do Prata): oferecer alimento atraente para que o receptor belisque, coma, entre... A gente pega os peixes assim; os homens também. Cevar é, desta forma, seduzir. Te dão comida para te converterem em comida. Aquele que se cevou - se cevou ou foi cevado - perde. Está acostumado a receber e passa ser escravo ou vítima do seu desejo, da sua necessidade. É um viciado; por isso, cevar-se é, também, exceder-se.

Cevam-se - sério mesmo! - também os explosivos. Quando pequenos, usávamos a palavra "cebitas" para referir-nos às minúsculas (e ineficazes) espoletas que carregavam os revólveres de brinquedo para provocar, com o cão, as pequenas explosões que simulavam disparos... Revólveres de "cebita", se chamavam. Assim, o ato de cevar tem sempre algo de segunda intensão, dissímulo ou engano.

É coerente não desdenhar mencionados aspectos quando falamos do ato de matear. Porque, voltando à esgrima nacional do porongo, da erva e da água quente, se escreveu muito - partindo da tradicional administração feminina da "cevadura" - sobre a "linguagem do mate", os significados erótico-amorosos que podiam depreender-se a partir de cada mate (frio, amargo, doce, longo, curto) que uma mulher cevava para um homem. Cevar era exatamente uma forma de seduzir/rechaçar, dialogar intencionalmente. O mate como isca e arma ao mesmo tempo. Como metáfora.

Um pouco disso tudo existe. Cada vez que cevamos/tomamos mate, a cerimônia atualiza esses tácitos significados.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Era azul e tu criança

Apareceste onde vivo
em temor claustrofóbico
e ânsias loucas de sei-lá-o-que.
Apareceste no recôndito íntimo
que é algibeira do trauma,
e esquife do Édipo.

Ali onde vivo e sobrevivo
apareceste.
Eras suor e lágrimas.
Eras filtro da malha leve do suéter.
As tiras de couro aferradas aos pés
longilíneos.
A distância medida em anos-luz
entre lunares que constelam
tuas espáduas.

Apareceste ali onde sobrevivo e resisto,
onde encontro o combustível de
amor e ódio que engendra
minhas batalhas e meus caminhos.
Foste o semi-perfil de criança
num passaporte novo e azul.
Foste a tez onde o arco-íris
não esmoreceu; a voz descontínua
que prolonga em tons altos e vocálicos
o crepúsculo dos verbos.

Quando apareceste ali onde resisto e ressinto,
onde sou gradiente contínuo do azul
ao vermelho,
impuseste a tênue ruptura da verdade
sussurrada.
A ruptura que nos arremessa
ao centro ideal de qualquer coisa
e nos torna potência com o
dom de devir no mais radical dos extremos.

Ali onde rabisco minha escatologia,
apareceste.
Produziste o belo com os
dejetos ocos e solícitos duma
catarse salobra, ingênua e risonha.
Catarse assimilada, quilômetros atrás,
pelo murmúrio do Rio mítico
cuja margem é marrom de Portos
e o leito, coágulo de sangue, madeira
e níquel.

Apareceste onde sou terno e tísico.
Desabaste da estante de Jacarandá qual
brasão federal, qual ídolo laico e burguês.
Teu estrondo em meu íntimo
foi de fechadura antiga, bronze denso
e oxidado. Corredor vazio.

Debruçaste-te pesadamente sobre
o que posso ser
com a naturalidade de quem
apenas reforça o mais belo
dos seus gestos ao advertir
o reflexo redondo da objetiva
fotográfica.
Naturalidade de quem rechaça,
com motricidade fina,
a beleza do espontâneo.